0# CAPA 10.6.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
edio 2429 - ano 48  n 23
10 de junho de 2015

[descrio da imagem: Beb, menino, aparenta entre 10 e 12 meses, sentado no cho, tendo dois filhotes e cachorro, um em cada lado, com as mos sobre os cachorros. Beb est com a boca aberta em expresso de felicidade, sorrindo.]
OK, VOCS VENCERAM!
O que significa para o pas a revelao do IBGE de que as famlias brasileiras j tm mais ces do que crianas.

[outros ttulos: parte superior da capa]

A FIFA  AQUI
A herana de Blatter para o Brasil so estdios caros e vazios.

CASO BEN
As ligaes perigosas da mulher do governador de Minas Gerais.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# INTERNACIONAL
5# GERAL
6# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 10.6.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  MUITO ALM DO PAPEL
     1#3 ENTREVISTA  LUIS STUHLBERGER  FLERTANDO COM O ABISMO
     1#4 LYA LUFT  PAGANDO A DVIDA ALHEIA
     1#5 LEITOR
     1#6 BLOGOSFERA

1#1 VEJA.COM

O OUTRO LADO DA PLULA
A plula anticoncepcional chegou ao mercado no comeo da dcada de 60 e foi uma das responsveis pela emancipao feminina. Ao longo dos anos, a cincia aprimorou o mtodo contraceptivo oral, com a reduo drstica dos efeitos colaterais, o que levou a resultados estticos positivos para as mulheres, como a diminuio do inchao e da oleosidade da pele causados pelos medicamentos mais antigos. Um novo estudo britnico, porm, mostra outro lado da plula  a sua relao com a trombose, formao de cogulos sanguneos graves. As mulheres que usam o mtodo contraceptivo, sobretudo os mais modernos, correm um risco at quatro vezes maior de sofrer da doena. Reportagem do site de VEJA ouviu especialistas para esclarecer em quais casos o comprimido pode ser um problema e apresenta uma lista com outros mtodos eficazes para evitar a gravidez. 

O REI DAS COMDIAS
O cineasta carioca Roberto Santucci foi chamado pela revista americana Variety de rei Midas da comdia no Brasil. A comparao faz sentido. Santucci  hoje o diretor recordista de pblico nos cinemas nacionais, com mais de 20 milhes de espectadores no currculo.  ele quem assina as franquias At que a Sorte Nos Separe e De Pernas pr Ar  longas que j tm sua terceira continuao em preparao. Seus mais recentes sucessos so O Candidato Honesto (2014) e Loucas pra Casar (2015). Agora ele foi o eleito para dar uma guinada em Qualquer Gato Vira-Lata 2, que chega aos cinemas em 4 de junho. Apesar de se dizer feliz com o mundo das comdias, Santucci quer fazer outras coisas. "Em breve vou apresentar um filme que no  do gnero", diz o diretor em entrevista ao site de VEJA. "A comdia mantm o cinema nacional vivo. Mas precisamos de dramas, de romances, e quero participar dessa mudana tambm." 

A PIADA DO OBAMA "HERMANO"
Omar Obaca quer ser o primeiro presidente negro da Argentina. Em sua plataforma de campanha, ele promete pagar parte da dvida externa com a China em doce de leite e criar leis que obriguem Messi e outras estrelas a jogar em times nacionais. Obaca faz sucesso nas ruas e nas redes sociais, em que, alm do nome similar, ele cultiva trejeitos que imitam o americano Barack Obama. O problema: Obaca  uma farsa. Candidato fictcio criado por uma produtora de vdeos, ele satiriza a misria poltica de seu pas s vsperas das eleies presidenciais, marcadas para outubro. Fazendo algumas piadas de gosto duvidoso, o candidato tambm promete dar aos seus concidados o "futuro negro" que os aguarda. Em entrevista ao site de VEJA, Obaca diz quais so suas pretenses caso seja "eleito". 


1#2 CARTA AO LEITOR  MUITO ALM DO PAPEL
     Como preparao para a cobertura da Olimpada de 2016, no Rio, a partir desta semana, e at agosto do ano que vem, VEJA oferecer gratuitamente, uma vez por ms, edies especiais eletrnicas para tablets e iPhone. Sero revistas interativas, com vdeos, udios, fotos em 360 graus e um amplo arsenal de recursos ldicos, destinados a enriquecer a leitura e aprofundar as informaes. Iniciamos a travessia, uma maratona cuidadosamente planejada, com uma antologia das grandes reportagens de VEJA atreladas aos Jogos. A tragdia do atentado palestino de 1972, em Munique, descrita na edio impressa h mais de quarenta anos, ganha agora dramaticidade associada a trechos de noticirios daquele tempo. A graa dos movimentos da romena Nadia Comaneci, que reinventou a nota 10 na ginstica artstica em 1976? V-la em ao, como ser possvel na edio eletrnica, chega a ser comovente. O inesquecvel ouro de Joaquim Cruz nos 800 metros de 1984? Ele prprio relata, de viva voz, como venceu a prova no Memorial Coliseum de Los Angeles. A coordenao desse extraordinrio trabalho coube ao editor Alexandre Salvador, responsvel simultaneamente pelas reportagens de esporte e pelas verses digitais de VEJA, secundado por Gabriel Grossi e por uma equipe de designers afeita  ao que h de mais moderno e inovador em publicaes para aparelhos de mo. 
     VEJA sempre esteve na vanguarda dessa nova fronteira digital. Foi a primeira publicao brasileira a ter seu contedo 100% adaptado para o iPad. Em 2014, acompanhamos a Copa do Mundo em 35 edies dirias para tablets e iPhone. Em 2011, j tnhamos enriquecido a cobertura jornalstica da morte de Steve Jobs, da Apple, com inteligentes e criativos recursos de animao que ajudaram a reforar a imagem de nossas edies para tablets com o aval da empresa que no apenas entende do assunto, como o inventou. No ano passado, a Apple ps as edies eletrnicas de VEJA entre as melhores do mundo em sua categoria, a de jornalismo para revistas. 


1#3 ENTREVISTA  LUIS STUHLBERGER  FLERTANDO COM O ABISMO
Para um dos mais bem-sucedidos financistas do Brasil, o modelo baseado em governo grande e alta do consumo chegou ao limite. O risco, agora,  amargarmos uma nova dcada perdida.
MALU GASPAR E GIULIANO GUANDALINI

Em um pas instvel como o Brasil,  um grande desafio saber defender o poder de compra e multiplicar o valor das aplicaes financeiras. Nesse campo, o gestor de investimentos Luis Stuhlberger  um craque cuja fama correu o mundo. Nas duas ltimas dcadas, poucos ganharam tanto dinheiro para seus clientes. Mais raros ainda so os que tiveram a ousadia de fazer apostas como aquela em que ele antecipou a desvalorizao do real, em 1999, lucrando 63% em um nico ms. Desde 1997, seu principal fundo, o Verde, que administra 22 bilhes de reais, j se valorizou mais de 10.000%. No mesmo perodo, o CDI rendeu 1370%. Tais resultados do a esse paulistano de 60 anos autoridade para desafiar os consensos do mercado e produzir algumas das mais certeiras anlises econmicas. H cinco anos ele alerta para o esgotamento do modelo baseado em governo grande e financiamento ao consumo. Agora, radicalizou a previso. Diz que o sistema entrou em colapso  o que vem pela frente  uma possvel nova dcada perdida para a economia. 

O Congresso concluiu a votao do pacote de ajustes das contas pblicas. Os cortes sero suficientes para equilibrar o oramento? 
Certamente no. As alteraes que o Congresso fez preservaram menos da metade do que havia sido proposto pelo governo. No final, o ajuste ter pouqussimos cortes reais, como os que foram feitos no seguro-desemprego, em abonos e nas aposentadorias. No chegar a 10 bilhes de reais por ano.  muito pouco, de qualquer ngulo que se olhe.  apenas uma frao do que o governo diz que precisa reduzir, e uma parte minscula dos 2 trilhes que os estados, os municpios e a Unio gastam todo ano. 

Quer dizer que o ajuste j est condenado ao fracasso? 
A verdade  que esse ajuste no interessa ao Congresso. Os deputados e senadores sabem que a situao  crtica, mas no querem arcar com o desgaste do corte.  como me disse um peemedebista outro dia, num evento para investidores: "O.k., vamos votar, porque a gente tambm no quer que o pas caia no abismo. Mas vamos defender o aposentado e o trabalhador. O nus a gente deixa para o PT". A ideia  essa, tirar proveito da coisa para enfraquecer o governo. Assim, o Congresso produz no um ajuste, mas um desajuste fiscal. Por um lado aceitou cortar 10 bilhes de reais ao ano e por outro tirou 30 bilhes s em mudanas no fator previdencirio. S que o governo ter de reagir da forma que sabe  e a  que est o problema. 

Por que o senhor diz isso? 
Porque o que vai acontecer  o que ocorre no Brasil desde a Constituio de 1988: aumentos de impostos. Posso garantir que haver alta no s neste ano, mas tambm no prximo, no prximo e no prximo. 

Foi essa a razo do recente mau humor do mercado, depois de um perodo de alvio nas bolsas? 
Para responder a essa pergunta,  preciso entender como o investidor pensa. De maro para c, houve um cenrio favorvel aos emergentes, com recuperao dos preos do petrleo e do minrio de ferro. Mas houve, tambm, um fenmeno especial: um dia, os investidores acordaram e se deram conta de que o PT nunca mais ser o mesmo. Perceberam que o modelo econmico est fragilizado, e o poder, dividido. Parte est nas mos de Dilma, outra parte, com Lula, outra com o Joaquim Levy, e uma quarta fatia, ainda, com os caciques do PMDB. Pela primeira vez na democracia, o Congresso, e no o Planalto, passou a ditar a agenda. Para quem se sujeitou por tantos anos ao PT, de repente pareceu um bom negcio. Parafraseando a msica do R.E.M., uma das minhas bandas preferidas, o investidor acordou e pensou: "It's the end of PT as we know it  and I feel fine!" (Este  o fim do PT como o conhecemos  e eu me sinto bem!). Todo mundo saiu comprando real, as aes da Petrobras subiram e o risco pas caiu. 

Por que o movimento se inverteu e o dlar voltou a subir? 
Porque o pessoal percebeu que surgiu um buraco negro, um vcuo poltico em que predominam interesses imediatos e paroquiais. Enquanto parte do PT joga pquer com o Levy, os outros partidos querem desgastar os petistas, para conquistar novos nacos de poder e faturar mais prefeituras em 2016. Est todo mundo dormindo com o inimigo  e o pas fica refm desses jogos. Depois da euforia inicial de saber que 2018 ser outro mundo, o investidor est se dando conta de que, primeiro,  preciso sobreviver at l. 

Sua viso sobre o Brasil sempre foi mais pessimista que a da mdia dos analistas. Por isso, neste breve momento de alta, o seu fundo teve um desempenho ruim. Isso o fez mudar de opinio? 
Sofri muito, porque esperava um dlar mais alto. Mas os gestores que vivem de pensar nas grandes tendncias de longo prazo esto sujeitos a essas oscilaes. Com uma responsabilidade grande como a nossa, de cuidar do dinheiro dos outros, temos a obrigao de nos perguntar todo dia se estamos, afinal, na direo certa. Fao isso sempre  especialmente quando o mercado vai contra mim, como foi por 45 dias. Eu me perguntei inmeras vezes se estava errado. 

E o que concluiu? 
Que estou certo, e tais oscilaes so meros rudos. O importante  manter o foco no que venho antecipando desde 2010, quando disse que a economia brasileira funcionava num esquema que chamei de moto-contnuo tropical. Disse que esse era um modelo condenado ao fracasso e que em algum momento se esgotaria. 

O que  exatamente esse moto-contnuo tropical? 
 o crculo vicioso que infla cada vez mais o governo para financiar o consumo, estrangulando o setor privado. No  apenas um modelo do PT, porque surgiu em 1988 e alou voo com o sucesso do Plano Real. Desde 1989, o tamanho do governo aumentou 15 pontos percentuais do PIB. Nenhum outro pas do mundo fez isso. Mas, em vez de aproveitarem o ciclo favorvel para fomentar um crescimento equnime, investindo em educao, sade e infraestrutura, os governos optaram por colocar dinheiro direto na conta das pessoas. Hoje, quase 90 milhes de brasileiros recebem cheques do governo  78 milhes so beneficirios de programas sociais e mais 10 milhes de funcionrios pblicos. Nos primeiros dez, quinze anos, o empresariado adorou, porque toda essa gente passou a comprar seus produtos. Era como dizia o Lula: "Eles ficaram ricos comigo". 

Por que esse modelo se esgotou? 
Ficou difcil sustent-lo s com a arrecadao dos impostos tradicionais, e por isso foram sendo criados tributos sobre o consumo. No estamos falando de taxar o lucro ou recolher para a Previdncia, mas sim de pagar imposto antes mesmo de produzir qualquer riqueza. Para completar, com tanta gente pendurada no governo, falta mo de obra para o setor privado e os salrios sobem. As margens de lucro se achatam e as empresas comeam a morrer. Destri-se, assim, o que mais teria de ser protegido: o esprito animal de 5%, 10% dos brasileiros, que querem empreender e sustentam todo o resto.  um erro crasso. Se eles morrerem, no vai sobrar ningum para pagar a conta. Chegamos ao momento em que a vtima no  mais o trabalhador ou o desassistido, e sim o empreendedor. Essa  hoje a questo fundamental, mas ningum est disposto a lidar com a verdade inconveniente. 

Como o empresariado pode sobreviver? 
Reduzindo os investimentos, diminuindo as horas trabalhadas, demitindo funcionrios, atrasando o pagamento de impostos. Alguns quebram. E o mais nefasto disso tudo  que, sem investimentos, quando o Brasil voltar a crescer, o desequilbrio entre a demanda e a oferta ser ainda mais profundo, e a inflao voltar ainda mais forte. Mas o Congresso e o Executivo ainda esto em estado de negao. Se tudo o mais falhar, eles acham que se pode aumentar mais ainda os impostos. 

A poltica recente de intensificar a interveno do Estado na economia  a causa do fiasco? 
No d para colocar toda a culpa nessa estratgia, chamada pelo ex-ministro Guido Mantega de "nova matriz econmica". O modelo ruiria de qualquer maneira, cedo ou tarde. Essa poltica foi uma reao desesperada e atabalhoada da Dilma, no primeiro mandato, para dar sobrevida ao crescimento da era Lula. Baixou os juros mais do que devia, no deixou o real desvalorizar, segurou tarifas e preos dos combustveis. E, por fim, usou a ltima ferramenta que restava: distribuir crdito via bancos pblicos. Agora, simplesmente acabou o dinheiro. Estamos flertando com o abismo. 

O Brasil pode quebrar novamente? 
Acredito que no como no passado, mas vamos viver em equilbrio vicioso, e no virtuoso. O cenrio virtuoso seria o aumento da produtividade, com reformas e inflao baixa. Mas como no  existe nem debate, nem liderana, nem esprito patritico para fazer esse tipo de reforma, s resta fazer remendos. Enquanto isso, a economia vai sendo sucateada, como um transatlntico afundando lentamente. S no  pior porque o colcho social  enorme. 

Alguns falam em um respiro na economia j em 2016. O senhor acredita? 
No. Desde o semestre passado, entramos com fora em um perodo de baixo crescimento, que no chegar ao fim em 2016, nem em 2017 e talvez nem mesmo em 2018. Estamos apenas comeando a atravessar o deserto. No descarto vivermos uma nova dcada perdida. 

H alguma forma mais rpida de incentivar a retomada? 
A nica chance  atrair investimento estrangeiro, porque no existe dinheiro no Brasil. Tenho certeza de que, depois que acabarem as votaes no Congresso, a agenda ser vender o que puder e montar pacotes de concesses. A Lava-Jato pode at favorecer a entrada de investidores internacionais, j que a grande restrio a esses capitais hoje  das barreiras no formais, as ligaes viciosas entre os polticos e as empreiteiras, num setor profundamente cartelizado  

A sua reputao  de saber ganhar dinheiro com as crises. Como se faz isso? 
No  muito simples de explicar, mas um pilar bsico  aplicar em segmentos que sero importantes no por dias ou por meses, mas por anos. Tenho parte do capital em aes no exterior, alguma coisa em petrleo, ienes, ttulos da Alemanha. No Brasil, firmei posies em dlares. Acerto muito, mas sofro todo dia. Afinal, conquistei uma credibilidade que at me permite errar de vez em quando, mas no por muito tempo. Isso porque o consenso do mercado est quase sempre correto. Ganha mais quem consegue identificar a hora de remar contra a corrente consensual. 

No ano passado, seu fundo teve uma rentabilidade abaixo da mdia do mercado. Onde o senhor errou? 
Todo ano de eleio apertada  um sufoco. Nessa ltima, surgiu um cisne negro, um imprevisto absurdo, que foi a morte do Eduardo Campos. A eleio no teria tido a emoo que teve se no fosse isso. No fundo, estava certa a minha suposio de que o dlar subiria com Dilma ou com Acio. O que eu poderia ter antecipado foi que a presidente seguraria o dlar para ganhar a eleio. Apesar disso, mantivemos nossa aposta e estamos ganhando muito em 2015. 

O senhor j disse que o mercado brasileiro  dominado por tubares. Acha que no  lugar para os pequenos? 
Se estivermos falando de investimentos em aes, at pode ser, porque existe alguma regulao e so aplicadas punies para o competidor desleal. Mas, no mercado de cmbio, inflao e juros,  terra sem lei. Nesse mercado, at eu evito investir no curto prazo. 

O senhor recomendaria comprar aes da Petrobras? 
No. Um dos meus princpios  fugir de estatais. Por uma questo bsica: elas no visam ao lucro. Por que vou investir em uma empresa cujo objetivo  servir o Estado? Eu at aceito perder dinheiro quando tomo decises baseadas em princpios corretos. J perder investindo na Argentina, na Rssia ou na Petrobras me traria um desgosto muito grande. 


1#4 LYA LUFT  PAGANDO A DVIDA ALHEIA
     De repente estamos todos endividados e inadimplentes  ao menos a maioria de ns brasileiros comuns, sem manses, nem iates, nem casas em Miami. Estamos assim porque fomos conclamados, tempos atrs, a consumir. Lembram? Eu no esqueci, e no consumi porque estava mais alerta e menos confiante: "Comprem seu carro! Troquem a geladeira! Comprem TV plana! No deixem de fazer nada disso; as elites brancas no querem que vocs tenham nada". 
     E saram os brasileiros confiantes e crdulos a consumir  como se consumo, e no investimento de parte do governo, fosse crescimento. Realmente tivemos por um breve perodo uma sensao nova de confiana e bem-estar. Disseram (e acreditamos) que a misria tinha sido liquidada no pas; e ramos todos da classe mdia: quem ganhava mais do que 350 reais era da classe mdia. 
     Ns nos sentamos modernos e potentes. Crdito abundante. Generosos prazos. Juros generosos tambm, mas isso no importava. E, agora, a surpresa: as dvidas. Passamos a endividados e inadimplentes porque obedecemos a quem nos conclamava a gastar, e possivelmente seremos desempregados porque essa ameaa se torna cotidiana. 
     O Estado que gastou mais do que podia e devia, com gesto equivocada, gastos faranicos em empreendimentos luxuosos logo abandonados por falta de planejamento, agora nos convoca a pagar tambm suas dvidas  que no so nossas. 
     H poucos dias fomos avisados: a caixa est vazia, o dinheiro do governo acabou, entrou no ralo da imprudncia. 
     Suspendem-se bolsas de estudo, investimentos em sade e infraestrutura, e abre-se a dura realidade: projetos, comisses, estudos, palavrrios, mas no sabem o que fazer com o Brasil. 
     Para consertar o que parece inconsertvel, corta-se na carne... sobretudo na nossa. Cortam-se benefcios como tempo de trabalho para ter seguro-desemprego, dificultam-se condies para obter aposentadoria, reduzem-se penses, e aumenta a angstia do povo. Cresce a inflao, sobe o desemprego, combinao fatal. Operrios, funcionrios, empregados domsticos, gerentes de lojas e de empresas, de repente s voltas com falta de trabalho e excesso de dvidas. 
     O Estado ento pede nossa pacincia e compreenso. Mas os brasileiros, sem a mnima segurana, morrendo mais do que em guerras, por toda parte sem escola, nem posto de sade, nem condies de higiene, esmagados em nibus velhos e estragados ou descendo do metr, com problemas para caminhar nos trilhos, no podem ter compreenso; a doena, a inanio, o abandono, a ignorncia, no podem esperar; a falta de esperana no pode esperar. Mulheres parindo no cho dos hospitais, doentes terminais sem remdio para suas dores, mdicos desesperados porque no h nem aspirina nem gua limpa para oferecer, no podem ter pacincia. Os estudantes que dependem do Fies, os bolsistas no exterior, por exemplo, no podem esperar. 
     A explicao fornecida para a crise  de romance: a Europa e os Estados Unidos so os responsveis, e So Pedro, que faz chover demais numa regio e pouco em outra. 
     Se no formos um povo escolarizado, um povo informado, que l jornal, assiste a noticiosos, conversa com famlia, amigos e colegas para saber o que se passa,  assim que seremos tratados. Promessas retumbantes e discursos otimistas e confusos no deviam mais nos enganar. A gente precisa da verdade. Precisa de respeito. Precisa das oportunidades que nos foram tiradas quando nos colocaram entre os ltimos do mundo em educao, economia, confiabilidade e outros. 
     Mas talvez se possa ajudar o Brasil usando as armas mais eficientes que temos, se bem usadas: manifestaes ordeiras, no acreditar em promessas vazias, nem dar ateno  dana de polticos que trocam de partidos e convices, na festa das gavetas que reina no Congresso. E usar o "voto"  gesto mnimo e definitivo que pode derrubar estruturas perversas e chamar de volta entre ns as duas irms indispensveis para uma nao soberana: esperana e confiana.
LYA LUFT  escritora


1#5 LEITOR

PRISO DE EXECUTIVOS DA FIFA
Se fosse medido pela escala Richter, o megaescndalo que envolve executivos da Fifa teria tranquilamente chegado ao ndice mximo j registrado na histria dos terremotos ("Corrupo padro Fifa", 3 de junho). No Brasil, o abalo tambm foi sentido. Que dos escombros surja um mnimo de dignidade dos "sobreviventes". 
VALDIR LIBERO 
Salto, SP 

Agora est explicado o porqu de tanta exigncia da Fifa. Eles queriam propina desde a escolha das cidades-sede das Copas at a venda de refrigerantes nos estdios. Ah, bando de usurpadores! 
KLEBER MONTORIL ROCHA 
Manaus, AM 

A banalizao da corrupo no tem limites. As denncias de vrias dcadas no futebol agora vieram  tona, e com dimenso internacional. E o Brasil no poderia ficar de fora  uma vergonha! Uma minoria inescrupulosa, mancha mais uma vez a imagem do pas, que tem o futebol como uma "paixo nacional". Que a justia seja aplicada implacavelmente a todos os envolvidos e que, de agora em diante, a Fifa seja moralizada e atue com dignidade e transparncia. 
NILTON MIRANDA 
Goinia (GO), via tablet 

Durante a campanha presidencial de 2014, Dilma Rousseff disse que seu governo era "padro Fifa". No mentiu. 
EDMILTON CARNEIRO ALMEIDA 
Itabuna (BA), via smartphone 

A corrupo  um mal mundial. Para combat-la so necessrias atitudes firmes de quem quer um mundo sem "espertos" que fazem mau uso de verbas pblicas e at mesmo particulares. 
URIEL VILLAS BOAS 
Santos, SP  

Que vergonha essa corrupo padro Fifa!
RUVIN BER JOS SINGAL 
So Paulo, SP  

J.R. GUZZO 
As colocaes de J.R. Guzzo quanto  questo da reduo da maioridade penal de 18 para 16 anos esto recheadas de concluses oportunas ("Questo de classe", 3 de junho). Gostaria de convidar os defensores da manuteno da atual maioridade, assim como aqueles que sempre tm seus dois minutos de fama quando o tema dos direitos humanos  levantado, a se alistar como efetivos patronos dessas causas, adotando ou se responsabilizando por esses marginais criminosos que continuam a arruinar famlias pelo Brasil afora, em especial nas grandes cidades. Ou, ento, que esperem que uma desgraa acontea com um de seus entes mais queridos e sintam na pele a verdade nua e crua de nossa sociedade criminosa. 
JOS CARLOS SOARES 
Rio de Janeiro, RJ 

Eufricos elogios pelo magistral artigo escrito pelo mais perspicaz jornalista da atualidade. J.R. Guzzo ("Questo de classe", 3 de junho) detectou com agudeza a nova "jurisprudncia" que se est instalando na sociedade, na qual a pobreza  desculpa para qualquer desmando praticado por quem no tem posses. O artigo de J.R. Guzzo deveria ser lido, debatido e difundido em todas as faculdades de direito e pregado no gabinete de todos os advogados. A vigorar tal ideologia, logo, logo esses Einsteins sociais estaro pregando a matemtica em que 2 mais 2 d 5 para os pobres e 3 para os ricos. E assim caminha a humanidade brasileira... 
LRIO ZANCHET 
Frederico Westphalen, RS 

Sobre o artigo "Questo de classe" (3 de junho), de J.R. Guzzo, ainda que o mesmo no raro externe as verdades que gostamos de ouvir, como advogado informo que nem todos os colegas pensam como os membros da OAB Federal  se  que assim eles pensam , porquanto as sees estaduais sejam autnomas. Portanto, a tese de que se uma pessoa menos afortunada comete um crime a culpa  da sua situao social no se traduz em unanimidade, ou melhor, est longe disso nos meios jurdicos. Corroboramos com o articulista tanto com relao  questo sociolgica do cidado delituoso quanto com relao  reduo da maioridade penal: ora, se pode (de maneira facultativa) votar, por que no ser considerado uma pessoa com discernimento suficiente para responder por sua conduta? 
EDUARDO GOELDNER CAPELLA 
Presidente da Comisso de Moralidade Pblica da OAB/SC 
Florianpolis, SC 

HISTRIA 
A reportagem "Vitria por atropelamento" (3 de junho) atribui a mim uma declarao incorreta. O que eu disse  reportagem  que as fileiras do Exrcito brasileiro eram compostas majoritariamente de setores afrodescendentes. As fileiras se compunham majoritariamente de afrodescendentes porque provinham dos setores mais pobres da populao. O que minimizei foi a verso de um "exrcito de escravos", comum  historiografia revisionista. Nesse cenrio, os libertos (escravos libertados sob a condio de servir) eram cerca de 10% do contingente. 
VTOR IZECKSOHN 
Programa de ps-graduao em histria social da UFRJ 
Rio de Janeiro, RJ 

MALSON DA NBREGA 
Relevante a anlise do economista Malson da Nbrega no artigo "O PSDB, quem diria,..." (3 de junho), no qual ele diz que os tucanos esto embarcando numa canoa furada, apoiando medidas ultrapassadas na Previdncia, sigilo bancrio, proibindo a terceirizao nas estatais, como se fossem medidas corretas para o bom funcionamento da mquina pblica, quando na verdade s inibem o crescimento e aumentam o dficit pblico, coisa que os petistas sempre pregaram e mostraram na prtica que no  vivel, e sim eleitoreira. Oxal os tucanos espantem essa miopia eleitoreira; esse legado  petista, no  o pensamento moderno que me contagiou e me fez eleitor de Fernando Henrique Cardoso e seu projeto de governo. 
LAILSON CORRA DE SOUZA 
Cuiab (MT), via tablet 

Desde 1994, sou eleitor e ferrenho defensor das ideias do PSDB. Entretanto, a partir da campanha para presidente em 2014 e das recentes posies no Congresso, o partido est nos decepcionando profundamente. A ideia apresentada na ltima linha do artigo de Malson resume bem o nosso sentimento: o PSDB est virando cpia ridcula do PT. 
CARLOS ANTONIO LOPES 
Santo Andr, SP 

CLUDIO DE MOURA CASTRO 
Desperdcio  lugar-comum no Brasil... A rea da educao no foge  regra, muito especificamente no ensino mdio, que "prepara ningum para nada", desperdiando recursos humanos e materiais. No artigo " culpa dos reitores!" (3 de junho), o economista Cludio de Moura Castro, com muita lucidez e bom-senso, aponta a urgncia de buscar trabalhar o ensino mdio de forma temtica e vocacionada. 
DARY WERNECK DA COSTA 
Campo Grande, MS 

H muito tempo defendo a ideia de que a extino dos cursos mdios clssico e cientfico deu incio  degringolada desse nvel de ensino e, por conseguinte, do nvel superior. A Lei 5692/71, que acabou com aqueles cursos e implantou o segundo grau profissionalizante obrigatrio, teve como consequncia a utopia de achar que todos os alunos sairiam do segundo grau preparados para exercer uma profisso. Desprezou-se o fato de que grande parte dos jovens tem como meta o ensino superior. O vestibular unificado, nas instituies que ainda o mantm e o levam a srio, acabou de destruir o preparo especfico de cada aluno de acordo com suas aptides e preferncias. 
ANTONIO FREDERICO CHASSERAUX SOUTO CORRA 
Santos (SP), via tablet 

DAVID PLOUFFE 
O americano David Plouffe disse a verdade na entrevista "Por que temer a inovao?" (3 de junho). Estive em So Paulo, entre 16 e 18 de maio, e s utilizei os servios do aplicativo Uber. Muito bom. Carros novos, extremamente limpos, motoristas educados, mesmo padro de vesturio. Ao acionarmos o aplicativo, j temos retorno do nome do motorista, do veculo, da placa e do tempo de chegada. No existe motivo para as cooperativas criarem essa briga; elas precisam modernizar seus servios. 
BOLESLAU DIAS BATISTA 
Uberlndia, MG 

Se formos levar em conta a legalidade, o aplicativo Uber de fato no pode ser considerado concorrente, pois no atua nas mesmas condies que determina a lei. Entre o discurso e a realidade do que fazem e de como trabalham, h um abismo enorme. O Uber no agregou nenhuma modernidade, sendo que 95% dos taxistas j trabalham com aplicativos para atender seus clientes! Quanto ao discurso da "carona" ou "economia compartilhada", os carros do Uber transportam pessoas individualmente e aumentam o nmero de carros nas ruas. Qual a modernidade que trazem? O que o entrevistado prope como contribuio do Uber  exatamente o que j faz um txi em So Paulo e no restante do mundo. E, ainda por cima, tambm temos carros de luxo. Informalidade? Afinal, quem est fora da lei e trabalhando na informalidade? O Uber ou, por exemplo, os 34.000 taxistas de So Paulo que so vistoriados, que pagam impostos e que esto de acordo com a lei? 
RICARDO AURIEMMA 
Presidente da Associao das Empresas de Txi do Municpio de So Paulo (Adetax) 
So Paulo, SP 

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#6 BLOGOSFERA
EDITADO POR KTIA PERIN kperin@abril.com.br

O CAADOR DE MITOS
LEANDRO NARLOCH
FUTEBOL
Quando o assunto  futebol, eu sou a gr-fina de narinas de cadver do Nelson Rodrigues. Vejo o jogo perguntando "mas o que  a bola?" ou "que jogador  esse chamado Semp Toshiba?". Gasto muito tempo tentando entender por que meus vizinhos gritam improprios pela janela. www.veja.com/cacadordemitos 

VEJA MERCADOS 
GERALDO SAMOR 
GS
O dlar em alta j voltou a pressionar o caixa da Petrobras, mas a estatal continua lidando com o preo da gasolina com luvas de pelica. Basta comparar a falta de sinalizao da Petrobras em relao ao preo da gasolina com sua atitude proativa  outros diriam furiosa  na rea de gs natural. A empresa resolveu subir o preo do gs em 7,59%. www.veja.com/vejamercados 

BLOG 
REINALDO AZEVEDO 
DR. FRANKENSTEIN 
Lula resolveu brincar de oposio, acreditando que isso lhe acarretaria, e ao PT, algum bem. O tiro saiu pela culatra. Os que se opem ao petismo h mais tempo rejeitam sua companhia no terreno da oposio e repudiam seu oportunismo. O senhor Luiz Incio Lula da Silva no venha agora posar de doutor Victor Frankenstein, arrependido de ter dado  luz sua criao. www.veja.com/reinaldoazevedo 

MUNDO LIVRE
MAGNA CARTA
O embaixador britnico no Brasil, Alex Ellis, fala sobre os 800 anos da Magna Carta, um marco na evoluo do sistema poltico ingls que influenciou constituies democrticas de todo o mundo. "Foi um documento criado para limitar os poderes do rei, mas contm alguns artigos que so importantes at hoje, como o que garante o acesso  Justia para todos e o direito a julgamento do cidado por seus pares", diz Ellis. O embaixador tambm fala sobre as semelhanas entre a srie de TV Game of Thrones e a histria britnica. www.veja.com/mundolivre 

SOBRE PALAVRAS
ESCRITA DINMICA
O que se escreve com facilidade costuma ser lido com dificuldade, e vice-versa. Alguns autores j disseram isso com palavras variadas, mas no custa repetir. A ideia acima traz na barriga, embutida lgica e inapelavelmente, esta outra: todo texto contm certa dose, que  varivel, mas nunca ausente, de dificuldade, trampo, pedreira. Quem vai encarar? Se o trabalho de quebrar pedras no for feito pelo sujeito que escreve, sobrar para o que l. E, caso este tambm no esteja disposto a se desincumbir da tarefa  mas quem poderia culp-lo? , babau: mais um texto para a montanha de lixo textual em que chafurdamos, www.veja.com/sobrepalavras 

CIDADES SEM FRONTEIRAS
CONGONHAS MELHORADO
H quase vinte anos, o site Sleeping in Airports avalia aeroportos do mundo, com crticas e dicas de quem j passou por eles.  consultado principalmente por quem precisa passar vrias horas ou at mesmo uma noite inteira em um aeroporto antes de seguir viagem. De antemo, o passageiro fica sabendo se encontrar lounges para descanso, vestirios com chuveiro, guarda-volumes e hospedagens prximas. Pela avaliao desse guia, o aeroporto mais completo  o de Changi, em Singapura. Congonhas, em So Paulo, no aparece no ranking, mas tem uma vantagem mpar: est situado numa rea central da maior cidade brasileira. Assim, servios que no so oferecidos dentro do aeroporto podem ser implantados na vizinhana, basta que se respeite a Lei de Zoneamento. Dessa forma,  possvel melhorar Congonhas sem depender de aes do governo ou de reformas milionrias, como mostra o projeto Gate One, que j est em andamento. www.veja.com/cidadessemfronteiras 

* Esta pgina  editada a partir dos textos publicados por blogueiros e colunistas de VEJA.com
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2# PANORAMA 10.6.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  UM CIDADO DO MUNDO
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM RENATO AMBRSIO JNIOR  FICOU MAIS FCIL CUIDAR DOS OLHOS
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  UM CIDADO DO MUNDO
Um excntrico ex-presidente recomea a carreira poltica em outro pas.

Fernando Lugo, ex-presidente do Paraguai, renunciou  cidadania de seu pas, naturalizou-se argentino e foi nomeado por Cristina Kirchner governador da Provncia de Corrientes. A frase acima  um disparate, mas basta trocar Fernando Lugo por Mikhail Saakashvili, Paraguai por Gergia, argentino por ucraniano, Cristina Kirchner por Petro Poroshenko e Corrientes por Odessa e tem-se uma notcia verdadeira. Ao apresentar o governador importado aos cidados de Odessa, Poroshenko disse que sua misso seria "preservar a soberania e a integridade territorial". Ele se referia ao fato de que, apesar de ainda no ter sido contaminada pela guerra separatista que, fomentada pela Rssia, se desenrola no leste, a maior provncia da Ucrnia tem potencial para confuso. Afinal, sedia o principal porto do pas no Mar Negro, tem o russo como a primeira lngua da maioria da populao e faz fronteira com a Transnistria, uma regio separatista pr-Rssia da vizinha Moldvia. O que Saakashvili, que governou a Gergia de 2004 a 2013, tem a ver com tudo isso? Aparentemente, vocao para enfrentar (alguns diriam espezinhar) o todo-poderoso Vladimir Putin, da Rssia, e experincia em lidar (desastradamente, diriam outros) com regies separatistas. Em 2008, ele mandou atacar uma delas, a Osstia do Sul, no norte da Gergia, incitando uma invaso militar russa. Saakashvili tambm tem amigos influentes no Ocidente, como o senador americano John McCain e o ex-presidente francs Nicolas Sarkozy, o que pode ser til para Poroshenko. Se pisar na Gergia, ser preso por usar dinheiro pblico para transportar de jatinho uma massagista americana que lhe aplicava "mordidas teraputicas", entre outros crimes. Melhor recomear em outro lugar. 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS

MORRERAM
Jean Boghici, marchand e um dos mais influentes colecionadores de arte do pas. Romeno, desembarcou no Rio de Janeiro no fim dos anos 1940, de um navio clandestino, fugindo das consequncias do ps-guerra. Chegou a estudar engenharia, mas apaixonou-se pela arte durante a fuga de sua terra natal  no caminho, passou pela Hungria e por Paris. Embarcou rumo ao Brasil influenciado pelo amigo e escritor americano James Baldwin, a quem conheceu na capital francesa. Baldwin desistiu da viagem, mas Boghici decidiu seguir, escondendo-se em um barco salva-vidas. Sem amigos nem dinheiro, trabalhou como tcnico de som e iluminador, antes de ser convidado para participar de O Cu  o Limite, programa de conhecimentos gerais da TV Tupi. No chegou ao fim da competio, mas ganhou um bom dinheiro com ela. Na dcada de 60, Boghici abriu sua primeira galeria, a Relevo, que lanou artistas como Antonio Dias e Rubens Gerchman. Dois trgicos incndios marcaram a trajetria do colecionador: o primeiro, em 1978, no Museu de Arte Moderna, durante uma exposio do uruguaio Joaqun Torres Garcia, que ele prprio havia organizado. O segundo, em 2012, em seu apartamento. Perdeu dez obras, incluindo Samba (1925), de Di Cavalcanti, avaliada em mais de 30 milhes de reais. Dia 31, aos 87 anos, de embolia pulmonar, no Rio. 

Irwin A. Rose, bioqumico americano que ganhou o Prmio Nobel de Qumica (2004) com outros dois colegas, Aaron Ciechanover e Avram Hershko, ao descobrir como as clulas descartam protenas velhas e danificadas. O trabalho dos trs pesquisadores possibilitou o desenvolvimento de novos tratamentos para o cncer cervical, o Parkinson e a fibrose cstica. Nascido em Nova York, Rose comeou a se interessar pelo mecanismo de descarte das protenas nos anos 50, quando poucos cientistas davam ateno ao assunto. Entre 1954 e 1963, foi membro do departamento de bioqumica da Escola de Medicina de Yale. Passou a maior parte de sua carreira no Fox Chase Cncer Center, na Filadlfia, mas recebeu a notcia do Nobel quando era pesquisador da Universidade da Califrnia. O qumico James Nowick, que trabalhava com Rose na instituio, lembra do momento em que ligou para felicit-lo: "Ele ficou muito feliz em falar comigo. No fim do dia, j estava de volta ao laboratrio da universidade, fazendo experimentos". Dia 2, aos 88 anos, de causa no revelada, em Massachusetts. 

Katherine Chappell, editora de efeitos especiais da srie Game of Thrones. Katherine estava na frica do Sul levantando fundos para uma instituio de caridade que protege os animais. Ela foi atacada por uma leoa quando fazia safri no Lion Park, que fica prximo a Johannesburgo. O guia que a acompanhava, Pierre Porgieter, sofreu um ataque cardaco ao tentar salv-la e est hospitalizado. Katherine trabalhou tambm nos longas Divergente e Capito Amrica. Dia 1, aos 29 anos, na frica do Sul. 

Lenidas Pires Gonalves, ministro do Exrcito do governo de Jos Sarney (1985-1990). Indicado por Tancredo Neves, o general foi personagem fundamental na transio para a democracia depois de 21 anos de ditadura. Tenente-coronel em 1964, no ano do golpe, nunca se arrependeu do movimento militar que deps Joo Goulart. "Ns, militares, nunca fomos intrusos da histria", dizia. Para Sarney, Lenidas "deu suporte para que a transio fosse feita com as Foras Armadas e no contra as Foras Armadas; pacificou o Exrcito e assegurou e garantiu o poder civil". Dia 4, aos 94 anos, no Rio. 


2#3 CONVERSA COM RENATO AMBRSIO JNIOR  FICOU MAIS FCIL CUIDAR DOS OLHOS
O vice-presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia conta como funciona a nova tcnica de cirurgia para correo de grau, bem menos invasiva, e diz que o abuso no uso do celular pode prejudicar a viso.

Como funciona essa nova tcnica?
H dois mtodos tradicionais para as cirurgias de miopia e astigmatismo. Numa delas, a primeira camada da crnea  removida e o olho recebe a aplicao de um laser. Na outra, levantamos uma "tampa" da crnea, aplicamos o laser e depois a reposicionamos. A nova tcnica, chamada Smile, adotada no Brasil h menos de dois anos, por no mais que vinte mdicos, utiliza um laser mais preciso, o VisuMax. Nela, fazemos apenas uma minscula inciso circular na crnea com o laser. 

Qual a diferena para o paciente? 
A cirurgia  praticamente indolor e exige uma recuperao de at trs dias, enquanto nas outras  preciso uma semana. Custa 6000 reais, contra 4000 das convencionais. 

Ficar vidrado no celular prejudica a viso? 
Sim. A tela desses aparelhos "pisca" numa frequncia que nos faz ficar mais atentos. Alertas, piscamos menos. Pestanejar pouco causa secura e vermelhido nos olhos. 

Quais as cirurgias puramente estticas que j podem ser feitas nos olhos? 
Uma muito esperada  a que muda a cor da ris. Estudos com lasers tm mostrado resultados promissores, com segurana aceitvel, mas a cirurgia ainda no est disponvel. A que est em uso  uma que implanta uma pelcula colorida na ris. Ela foi lanada sem estudo clnico, e pode prejudicar a viso de forma irreversvel. 

Quais so os hbitos simples a seguir para preservar a boa viso? 
Coar os olhos com muita fora pode traumatizar estruturas da crnea. Dormir com maquiagem irrita a superfcie das plpebras e pode at obstruir as glndulas lacrimais. 

Quais os mais importantes avanos na oftalmologia nos ltimos anos, alm da Smile? 
A cirurgia de catarata. Hoje, a operao dura em mdia dez minutos,  feita com anestesia em gotinha e o paciente tem alta no mesmo dia. Antes, a anestesia era geral. 


2#4 NMEROS
12 cartas, incluindo as comerciais, os brasileiros receberam em mdia no ano passado, contra 35 h catorze anos. 
2 vezes, no entanto, aumentou em uma dcada a entrega pelos Correios de mercadorias em domiclio, servio que a Amazon planeja agora prestar por meio de drones. 
2,7 quilos e o peso que devero transportar os aparelhos da empresa americana. Em seu pedido de patente, cujo teor foi revelado no ms passado, ela afirma que os drones sero capazes de localizar o destinatrio por dados do seu celular, o que lhe permitir receber a mercadoria onde estiver. 
120 metros  a altura mxima a que podem voar os drones nos Estados Unidos, que acabam de autorizar os testes da Amazon em seu territrio.


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Juros -  A taxa Selic sofreu sua sexta alta consecutiva e foi para 13,75%, o maior patamar desde dezembro de 2008. 
George W. Bush -  O ex-presidente, que deixou o cargo rejeitado por 76% dos americanos, agora tem 52% de aprovao e j  mais popular que Barack Obama. 
Harvard -  A universidade recebeu do ex-estudante de engenharia e atual bilionrio John Paulson a maior doao de sua histria: 400 milhes de dlares. "A educao que tive aqui me abriu muitas portas", justificou.

DESCE
Dentes -  Um em cada dez brasileiros no tem nenhum, mostrou o IBGE. 
Malaysia Airlines -  Depois de dois acidentes em quatro meses, a companhia area, que j vinha no vermelho, decidiu demitir 6000 funcionrios e anunciou estar tecnicamente quebrada. 
Cristiano Ronaldo -  O trs vezes eleito melhor jogador do mundo foi flagrado urinando na rua depois de uma noitada em Saint-Tropez, na Frana. 


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 GOVERNO
RUIM OU PSSIMO 1
O Palcio do Planalto recebeu h duas semanas uma pesquisa feita pelo Vox Populi que mostra o descolamento entre a popularidade de Dilma e a dos governadores dos trs estados mais importantes do Brasil. Pela pesquisa, realizada nas regies metropolitanas de So Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o governo Dilma  visto como ruim ou pssimo por 75% dos entrevistados. 

RUIM OU PSSIMO 2 
Entre os governadores, esse porcentual  de 25% para Geraldo Alckmin, 30% para Luiz Fernando Pezo e 16% para Fernando Pimentel (embora no caso mineiro, ressalte-se, a pesquisa tenha sido feita antes das revelaes que envolvem a primeira-dama de Minas Gerais). 

TUDO QUEBRADO 
Joaquim Levy , ao lado de Aloizio Mercadante, um dos ministros que tm direito a residncia oficial. Mas Levy no mora na casa que seus antecessores habitaram. Preferiu um flat. O imvel ocupado por Guido Mantega at dezembro est caindo aos pedaos  exatamente como a economia que Mantega legou aos brasileiros. 

 PARTIDAS 
CONSELHO DO CHEFE 
Lula teve uma conversa no incio de maio com Fernando Pimentel. Recomendou que ele se "nacionalize"  ou seja, que aparea mais nos debates dos grandes temas e no fique restrito a Minas Gerais. O conselho foi dado antes de estourar o caso Ben. 

LUTA POR ESPAO 
Geraldo Alckmin trabalha para encorpar o seu poder na cpula do PSDB. Quer, na conveno nacional marcada para 5 de julho, indicar o secretrio-geral, o tesoureiro e um vice do partido presidido por Acio Neves. Quem conhece a alma do PSDB acha que, no final das contas, Alckmin conseguir fazer do deputado Silvio Torres o secretrio-geral. E nada mais.  

FORA, MAS NEM TANTO 
Quem disse que Aloizio Mercadante est fora das articulaes polticas? Pelo menos nas conversas com alguns partidos aliados como o PP e o PRB  Mercadante, ao lado de Michel Temer, quem conduz as conversas. De fato, a estratgia do governo para as votaes no Congresso  coisa de Temer. Mas o toma l d c dos cargos passa tambm por conversas no gabinete de Mercadante.  ele, ainda, quem define o momento de o cargo acertado ir para o Dirio Oficial.   

 ECONOMIA 
OPERAO RECOMPRA 
Avanam bem as negociaes entre Arminio Fraga e o J.P. Morgan para a recompra da Gvea Investimentos, vendida ao banco americano em 2010. Se forem fechadas, o J.P. Morgan continuaria scio da gestora, mas minoritrio. 

MAIS UMA DOSE 
Nem Pepsi nem Coca. Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira estudam, em estgio inicial, a compra da britnica Diageo, a maior fabricante de destilados do mundo e ex-dona do Burger King, hoje controlado pelo trio brasileiro.  

GUA NO CHOPE 
Nos cinco primeiros meses do ano, a produo de cervejas caiu 6,7% no Brasil em comparao com os cinco primeiros meses do ano passado. No Nordeste, porm, onde nos ltimos anos as vendas aumentaram mais que a mdia nacional, a queda chegou aos dois dgitos. 

HORA DE ENCOLHER 
A venda do Submarino Viagens para a CVC por 80 milhes de reais no ser a nica que a B2W far de seus ativos neste ano. 

1 BILHO DE REAIS 
A Camargo Corra Cimentos est se estruturando para captar no mercado 1 bilho de reais.  tambm uma espcie de efeito Lava-Jato, pois o dinheiro refora o balano da holding. 

NA FRICA 
A BRF decidiu abrir uma unidade processadora de aves em Angola, a primeira que possuir na frica.  

O QUE ELE FAR? 
A quinta-feira 11  um dia para prestar ateno no Carrefour. Em Paris, ocorrer a assembleia que escolher os conselheiros de administrao do grupo. Ablio Diniz tem aes suficientes para indicar um deles  em abril, investiu 630 milhes de euros para elevar sua participao de 2,4% para 5,07%. Apesar disso, j disse que no o far. S que na cpula do Carrefour ningum acredita totalmente nisso. 

 FUTEBOL 
NA MIRA 1 
Contratada por patrocinadores da Fifa, a Kroll est investigando a entidade. 

NA MIRA 2 
Marco Polo Del Nero contratou o criminalista Jos Roberto Batochio para defend-lo de tudo o que vem por a. 

 INTERNET 
CAIXA BILIONRIO 
O Google j  uma das cinco empresas que mais pagam imposto na cidade de  So Paulo. O valor recolhido ultrapassou a marca de 1 bilho de reais nos ltimos doze meses. No ano passado, o Google foi acusado por Paulo Bernardo, ento ministro das Comunicaes, de tratar o Brasil como "paraso fiscal". 

 TELEVISO 
NOVO CANAL 
O milionrio Nasser Al-Khelaifl, dono do Paris Saint-Germain, est de olho no Brasil. Quer trazer para c a beIN, sua emissora de esportes. 

 LIVROS 
TESTE DE FLEGO 
Ser que Cinquenta Tons de Cinza, cujos trs volumes venderam 6 milhes de exemplares no Brasil, ainda tem flego para arrasar o quarteiro? A resposta ser dada a partir de 18 de setembro, quando a Intrnseca lana Grey, em que E.L. James narra a histria da srie sob o ponto de vista do personagem Christian Grey. O livro sai com a tiragem de 400.000 exemplares. 


2#7 VEJA ESSA
A retomada da economia brasileira ser lenta, tijolo a tijolo." - JOAQUIM LEVY, ministro da Fazenda, durante seminrio sobre a Amrica Latina organizado pelo Fundo Monetrio Internacional. 

 melhor ter gente com experincia." - PEL, em evento do time americano Cosmos em Cuba, ao declarar apoio  reeleio do suo Joseph Blatter  presidncia da Fifa, horas antes da renncia do megacartola (leia mais sobre o escndalo na pg. 80). 

Teve um empresrio que amanheceu na minha casa porque ia aparecer numa festa com outra mulher. Fui e cortei a imagem." - AMAURY JR., o colunista social mais longevo da televiso brasileira, em entrevista  PLAYBOY de junho. Amaury afirma que o tal empresrio "manda presente at hoje". 

A verdadeira empatia , s vezes, no insistir na ideia de que tudo ficar bem, mas reconhecer que isso no ser possvel." - SHERYL SANDBERG, alta executiva do Facebook, em uma mensagem emocionada, postada em sua pgina na rede social, em memria aos trinta dias da morte de seu marido, Dave Goldberg, vtima de um acidente numa esteira de corrida. 

Apenas se estivesse vivendo com fortes dores ou se sentisse que no teria mais nada a contribuir, sendo apenas um fardo para os que me rodeiam." - STEPHEN HAWKING, fsico ingls, ao apresentar as nicas condies que o fariam considerar o suicdio assistido, em entrevista  BBC .

Eu bem que gostaria de estar de noiva de novo. = CLAUDIA RAIA, atriz de 48 anos, revelando no programa GNT Fashion que, mesmo j se considerando casada com o atual namorado, o ator Jarbas Homem de Mello, teria vontade de usar o vestido branco pela terceira vez. 

Em vez de fumar um baseado, agora tomo uma taa de vinho ou uma boa margarita. - PAUL MCCARTNEY, 72 anos, em entrevista ao jornal ingls Daily Mirror, ao dizer que aboliu o consumo da maconha "h algum tempo" para dar bom exemplo a seus filhos. 

Ns estamos no sculo XXI, em 2015. E de repente as pessoas ficam chocadas com coisas com que no se chocavam antigamente. - DENNIS CARVALHO, diretor de novelas, em entrevista  GloboNews, a respeito da baixa audincia de Babilnia, a atual trama das 9 da Globo. 

Mudar o rumo de um cargueiro  mais difcil que o de um bote. Quanto maior o negcio, mais difcil mudar. - SALIM ISMAIL, presidente da Singularity University, em entrevista ao site de VEJA, em que afirma que empresas tradicionais dificilmente tero sucesso em mudar seus processos para enfrentar a concorrncia de startups transgressoras como Airbnb e Uber. 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto da revelao de que h mais ces que crianas no Brasil 
A virtude a que chamamos de boa vontade entre os homens  apenas a virtude dos porcos na pocilga, que dormem juntinhos para se aquecer. - HENRY DAVID THOREAU (1817-1862), filsofo americano.
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3# BRASIL 10.6.15

     3#1 DUAS MULHERES E UM SEGREDO
     3#2 SUSPEITA DE TENTADO
     3#3 O BANCO CAMARADA
     3#4 A DUPLA DINMICA
     3#5 MORTE EM 45 SEGUNDOS

3#1 DUAS MULHERES E UM SEGREDO
As ligaes da primeira-dama de Minas Gerais e de uma enfermeira humilde com o homem acusado de bancar as campanhas do PT com dinheiro desviado dos cofres pblicos.
RODRIGO RANGEL E ADRIANO CEOLIN

     As duas mulheres que aparecem nesta reportagem no se conhecem. Carolina de Oliveira  jornalista. Cresceu na periferia de Braslia e hoje  a primeira-dama de Minas Gerais. Helena Maria de Sousa, ou Helena Ventura, como tambm  conhecida, mora em Betim, na regio metropolitana de Belo Horizonte,  enfermeira da rede pblica de sade e se candidatou a deputada estadual nas ltimas eleies pelo PT. Apesar das trajetrias aparentemente distintas, as duas so suspeitas de envolvimento no mais recente escndalo de corrupo investigado pela Polcia Federal. Ambas, cada uma  sua maneira, esto conectadas a Benedito de Oliveira Neto, o Ben, empresrio de Braslia que, na ltima dcada, fez fortuna como parceiro do governo federal, teve como cliente a campanha da presidente Dilma Rousseff, foi preso e est indiciado por formao de quadrilha. 
     O acaso levou Carolina a Ben. Formada em comunicao, ela trabalhou numa empresa que prestava servios ao ento prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Logo, foi promovida a assessora pessoal dele  e no se separaram mais. Em 2010, Pimentel foi indicado para coordenar a campanha presidencial de Dilma Rousseff. Carol o acompanhou. O prefeito delegou a Benedito de Oliveira, seu amigo, a montagem do comit central. Ben alugou a casa e organizou toda a infraestrutura para o incio da campanha. Ele era um mero desconhecido, e continuaria nas sombras se no fosse um escndalo que eclodiu antes mesmo do incio da campanha. Alm de marqueteiros e jornalistas, o empresrio contratou para o comit uma equipe de ex-policiais e arapongas para bisbilhotar a vida de adversrios. Revelado por VEJA, o caso provocou o afastamento da dupla Pimentel-Ben do comando da campanha  mas s da campanha. 
     Eleita, Dilma nomeou Fernando Pimentel para comandar o Ministrio do Desenvolvimento, Indstria e Comrcio Exterior. O ministro, por sua vez, contratou Carolina como sua assessora no ministrio. Ela cuidava dos compromissos oficiais, acompanhava as viagens e estava presente na maioria dos eventos de que ele participava. Em 2012, motivado por rumores, Pimentel recomendou que a assessora deixasse o cargo. A pedido do ministro, ela foi contratada por uma agncia que presta servios ao PT. Montou a prpria empresa, a Oli Comunicao, e, recentemente, oficializou a unio com o agora governador Fernando Pimentel. Nesse perodo, Ben continuou ganhando dinheiro. Foram mais de 500 milhes de reais em contratos superfaturados com o governo. Tudo estaria bem para todos se, no ano passado, Ben no tivesse sido apanhado outra vez com a boca na botija. A polcia apreendeu um avio do empresrio com 113.000 reais em dinheiro e documentos que sugeriam que ele repetia na campanha de 2014 o mesmo papel que desempenhara em 2010  o caixa paralelo que financiava o PT. 
     As investigaes indicam que Ben montou uma ampla rede criminosa envolvendo empresas-fantasma para financiar as campanhas petistas, incluindo a do governador Pimentel. Basicamente, ele superfaturava contratos com o governo e repassava parte do que arrecadava aos partidos atravs de doaes legais, como no petrolo, ou clandestinas, atravs das empresas-fantasma. Na operao policial que prendeu o empresrio, a polcia realizou buscas no apartamento onde Carolina Oliveira morava antes de se mudar para Belo Horizonte. Procurava documentos que mostrassem negcios entre ela e o empresrio. A sede da Oli Comunicao estava registrada no mesmo endereo de uma empresa-fantasma de Ben. 
      nesse ponto que a histria de Carolina converge com a de Helena Ventura. Sindicalista e filiada ao PT, a enfermeira disputou trs eleies. Foi candidata a deputada federal em 2010, a vereadora em 2012 e, no ano passado, tentou uma vaga na Assembleia Legislativa de Minas. Somando o resultado das trs eleies, ela teve incrveis 29 votos. Mas o que chamou ateno foi o custo de sua ltima campanha. Dona de um salrio de 2000 reais, Helena declarou ter gasto 36.280.000 reais com a candidatura. E o mais interessante  que praticamente todo o dinheiro, 36.250.000 reais, foi pago a um nico fornecedor  a Grfica Brasil, cujo proprietrio  Benedito de Oliveira.  evidente que existe algo muito estranho nessa histria. 
     H um grande segredo envolvendo esses personagens. Segundo um relatrio do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, o dinheiro a ser repassado para a Grfica Brasil tinha como origem declarada o fundo partidrio  a verba que os partidos polticos recebem  dos cofres pblicos. O PT no quis se pronunciar. A enfermeira disse que desconhece tanto a origem quanto o destino do dinheiro. "Se eu tivesse esse dinheiro, seria eleita com certeza", afirmou ela ao jornal Hoje em Dia. Helena tambm garante que nunca ouviu falar do empresrio. Benedito de Oliveira, j solto, disse, por meio de seu advogado, Celso Lemos, que nem sabe quem  Helena. Caroline Oliveira no foi localizada. Seu advogado, Pierpaolo Bottini, informou que a primeira-dama de Minas Gerais mantm apenas relaes de amizade com a famlia de Ben. Negcios? Nenhum. A coincidncia de endereos teria sido apenas um grande mal-entendido. O advogado diz que a Oli funcionou num escritrio no centro de Braslia at julho de 2014 e, depois disso, uma das empresas de Ben se instalou no mesmo endereo. Por equvoco, algum se esqueceu de formalizar a mudana. Simples assim. 
COM REPORTAGEM DE HUGO MARQUES


3#2 SUSPEITA DE TENTADO
A Polcia Federal investiga o vazamento de gs que por pouco no provocou uma exploso nas dependncias utilizadas pelos delegados e agentes envolvidos na Operao Lava-Jato.
HUGO MARQUES

     A reao  investigao do petrolo  proporcional ao tamanho do esquema de corrupo, o maior da histria do pas. Alvos de inquritos no Supremo Tribunal Federal (STF), os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Cmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), constrangem o procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, criticando-o e prometendo barrar sua reconduo ao cargo. Os advogados de polticos e empresrios tentam a toda hora desqualificar o trabalho do juiz Srgio Moro, responsvel por investigar um desfalque de pelo menos 6 bilhes de reais nos cofres da Petrobras. Diante das provas contundentes da roubalheira e da impossibilidade de refut-las, os criminalistas fazem lobby para que a Justia considere irregulares os procedimentos adotados por Moro e, assim, anule a Operao Lava-Jato. Esses lances so jogados  luz do dia, mas h outros  to decisivos  deflagrados nos bastidores. No ms passado, VEJA revelou que o comando da Polcia Federal em Braslia investiga de forma sigilosa os delegados e agentes envolvidos na apurao do petrolo. 
     Um inqurito aberto pela Corregedoria da PF quer saber se os investigadores da Lava-Jato que trabalham no Paran, o centro nevrlgico da apurao, implantaram escutas clandestinas para colher provas contra os acusados. Confirmada essa suspeita, os advogados teriam a chance de ouro para enterrar a operao. Essa investigao foi aberta com o conhecimento do ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, que, como se sabe, se reuniu com advogados de grandes empreiteiras e pediu a eles que convencessem seus clientes a no fechar acordos de delao premiada. Parece mais um caso de ao poltica para sabotar ou constranger os investigadores. No  o nico. Dias atrs, a PF do Paran comeou a apurar um possvel atentado contra o prdio em que se encontram os investigadores da Lava-Jato. Na semana retrasada, policiais estranharam um cheiro forte de gs de cozinha. Era um vazamento. Mas no um vazamento qualquer. Os bicos das quatro bocas e do forno de um fogo estavam abertos. Uma fasca, e tudo teria ido pelos ares. Seria uma tragdia. 
     Segundo relato de um delegado, a exploso atingiria a sala onde ficam os arquivos e os documentos mais reservados da Lava-Jato. Se no tivesse sido descoberto a tempo, o vazamento tambm faria vtimas na equipe encarregada de apurar o maior escndalo de corrupo da histria. Policiais que trabalham em Curitiba disseram a VEJA que o vazamento de gs foi descoberto numa copa localizada no 3 andar do prdio da superintendncia, a poucos metros da sala onde se concentram os trabalhos da Operao Lava-Jato e do gabinete do superintendente da PF no Paran, Rosalvo Franco. "Abriram os quatro queimadores do fogo e o do forno e deixaram expelindo gs. Poderia ter explodido tudo", disse um policial a servio da Lava-Jato. "A impresso  que tudo isso  feito para sufocar o trabalho, intimidar, criar dificuldades", afirma outro policial. A sindicncia para apurar o caso corre em sigilo. Outro delegado ouvido por VEJA deu uma verso um pouco diferente. Ele confirmou o incidente, mas disse que o vazamento no ocorreu to prximo  sala da Lava-Jato. 
     Esse mesmo delegado confirmou, contudo, que a prpria Polcia Federal est apurando o ocorrido  em especial, quem deixou o gs escapar. Para policiais que trabalham na superintendncia no Paran e lidam diretamente com o caso, uma coisa  certa: a atitude de quem abriu os queimadores e deixou o gs escapar foi intencional  e tinha por objetivo, pelo menos, provocar um incidente no prdio onde funciona a base de operaes da Lava-Jato. No mensalo, presses para tumultuar o processo e tentativas de sabotagem eram comuns. Parlamentares chegaram a cogitar a apresentao de um pedido de cassao de mandato do ento procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel, que defendeu a condenao da antiga cpula petista. Criminalistas renomados tambm criticaram os procedimentos do relator do processo no STF, Joaquim Barbosa. E at uma CPI foi criada para tentar constranger os principais personagens da investigao. Deu em nada. Os mensaleiros foram condenados  priso. Mas o caso, ao que parece, no serviu de lio. Os criminosos de antes e seus aliados de hoje continuam usando todo tipo de ardil para tentar escapar da Justia. 


3#3 O BANCO CAMARADA
Mesmo escondendo o principal, o BNDES revela critrios escandalosos para financiar obras no exterior com dinheiro do povo brasileiro.
LEONARDO COUTINHO

     Na semana passada, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social (BNDES) divulgou uma parte das informaes, at ento sigilosas, referentes a emprstimos concedidos para obras de infraestrutura em Cuba e Angola. A instituio tambm disponibilizou os dados de contratos com outros nove pases. Apesar de bem-vinda, a deciso do banco est longe do que pode ser chamado de transparncia. Os dados abertos tratam apenas dos valores das operaes, das taxas de juros e dos prazos de pagamento aplicados. Detalhes sobre as garantias oferecidas pelos contratantes, pareceres tcnicos e anlises de risco ainda continuam obscuros. A deciso do BNDES foi uma estratgia para evitar a abertura de uma CPI no Senado para investigar os contratos. 
     Os dados liberados pelo BNDES revelam que o total emprestado pelo banco desde 2007  de 12 bilhes de dlares, divididos em 516 contratos. Angola foi o pas que mais recebeu recursos (cerca de 3,5 bilhes de dlares), seguido pela Venezuela (2,25 bilhes) e Repblica Dominicana (2,2 bilhes). Para quase 60% dos contratos de emprstimo, o BNDES cobrou taxas de juros mais camaradas do que  costuma praticar para obras dentro do Brasil. Os angolanos, por exemplo, no conseguem no mercado internacional dinheiro a taxas inferiores a 7,5%, mas o BNDES injetou no pas o equivalente a 29% de todo o montante que emprestou nos ltimos oito anos com uma taxa de juros mdia de 5,3%. A taxa mais baixa para uma obra de infraestrutura no Brasil  de 5%. Para um pas com o perfil de Cuba, segundo estudo da Universidade de Nova York, os juros deveriam ser de 12,5%, mas o Brasil concedeu 847 milhes de dlares em emprstimos a 5,4% e com prazo de pagamento de at 25 anos. 
     A camaradagem do governo, por meio do BNDES, tem um preo para os pagadores de impostos brasileiros. Isso porque o banco capta o recurso a custo mais alto do que repassa para as empresas que faro as obras no exterior. Os recursos oriundos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), por exemplo, custam no mnimo 6% ao ms. No caso do Porto de Mariel, o banco cobrou apenas 5,2%. Luciano Coutinho, presidente do BNDES, est correto quando diz que o banco no perde dinheiro. Por lei, o BNDES no pode assumir o prejuzo da operao. A Unio paga a diferena. A chamada "equalizao das taxas de juros" , portanto, coberta com recursos pblicos. 
     No fim de 2014, a dvida da Unio com o BNDES para cobrir as operaes de compensao era de 26,1 bilhes de reais. Quando criticado, o governo se defende dizendo que as empresas brasileiras envolvidas nas operaes geram empregos e receitas para o Brasil e que no conseguiriam conquistar esses mercados sem a ajuda oficial. O que no parece razovel  que a falta de eficincia das empresas nacionais seja premiada, que certos regimes ditatoriais sejam subsidiados e que obras de infraestrutura essenciais para o desenvolvimento do Brasil sejam negligenciadas, enquanto o dinheiro jorra para o exterior. 

PODERIA SER AQUI
Com o dinheiro emprestado pelo BNDES a grandes obras no exterior daria para reduzir parte do dficit em infraestrutura no Brasil.

ARGENTINA
Gasoduto da TGS e da TGN
VALOR (EM MILHES DE DLARES): 636,9
O QUE DARIA PARA FAZER NO BRASIL: Construir quase 40% de um duto entre Campinas (SP) e Canoas (RS) para distribuio de gs.

VENEZUELA
Usina Siderrgica Nacional
VALOR (EM MILHES DE DLARES): 865,4
O QUE DARIA PARA FAZER NO BRASIL: Bancar quase que integralmente um mineroduto para transportar minrio de ferro de Minas Gerais ao Porto de Ilhus (BA)

CUBA
Porto de Mariel
VALOR (EM MILHES DE DLARES): 682
O QUE DARIA PARA FAZER NO BRASIL: Realizara dragagem do Porto de Santos (SP), que est assoreado, e pagar a ampliao prevista do Porto do Rio de Janeiro

REPBLICA DOMINICANA
Termeltrica Punta Calina
VALOR (EM MILHES DE DLARES): 656
O QUE DARIA PARA FAZER NO BRASIL: Erguer trs usinas com capacidade para iluminar uma cidade com a populao de Natal

EQUADOR
Projeto de irrigao Trasvase Daule-Vinces
VALOR (EM MILHES DE DLARES): 137
O QUE DARIA PARA FAZER NO BRASIL: Ampliar em quase 65% a rede de canais de distribuio de gua no serto cearense

GUATEMALA
Rodovia Centro-Americana
VALOR (EM MILHES DE DLARES): 280
O QUE DARIA PARA FAZER NO BRASIL: Duplicar dois teros do trecho da BR-101 entre os estados de Pernambuco e Alagoas

ANGOLA
Hidreltrica cambambe
VALOR (EM MILHES DE DLARES): 464,4
O QUE DARIA PARA FAZER NO BRASIL: Terminar de construir a Usina de Santo Antnio, em Rondnia

MOAMBIQUE
Barragem Moamba-Major
VALOR (EM MILHES DE DLARES): 320
O QUE DARIA PARA FAZER NO BRASIL: Construir duas barragens previstas entre as obras do PAC no Piau


3#4 A DUPLA DINMICA
s vezes de comum acordo, outras vezes em rota de coliso, Cunha e Calheiros levam o Congresso a um protagonismo indito, mas o eleitor que se cuide: nem tudo  o que parece.
ANDR PETRY

     Agora, na iniciativa mais recente, eles inventaram o seguinte: apresentar um projeto para que os dirigentes das empresas estatais tambm sejam sabatinados e confirmados pelo Congresso Nacional. A ideia  abrir a caixa-preta das estatais, que permitiu barbaridades como o escndalo da Petrobras. Ela saiu de duas cabeas: a do presidente da Cmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e a do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). A proposta de pr a casa do povo para fiscalizar as estatais  positiva e obedece a uma tendncia internacional. Pelas estatais, correm caudalosos rios de dinheiro do contribuinte. No h nenhuma razo, administrativa ou financeira, para que os parlamentares no possam dar uma palavra sobre os rumos das estatais. 
     Com Cunha na dianteira e Calheiros na retaguarda, o Congresso alcanou nos ltimos meses um protagonismo como nunca se viu na democracia brasileira. Nem no governo de Sarney, que teve fim melanclico. Nem no ltimo ano do tucano Fernando Henrique, que se arrastou at o encerramento depois do rompimento com o ento PFL. Nem no ano passado, quando Dilma conclua seu primeiro mandato num clima de penria poltica que j prenunciava o atual desterro presidencial. Agora, a cada semana, por iniciativa de Cunha e Renan, vota-se alguma matria de relevncia, deflagra-se algum debate polmico, analisa-se alguma proposta que repousava nas gavetas h dcadas.  
     Os cientistas polticos costumam dizer que a Constituio de 1988 brindou o presidente da Repblica com tantos poderes  medidas provisrias, pedidos de urgncia, trancamentos de pauta  que o Congresso vivia asfixiado pela potncia avassaladora do governo. Os estudiosos chamam esse cenrio desigual de "hiperpresidencialismo brasileiro". Com o ativismo febril do Congresso nos ltimos tempos, percebe-se que a anlise talvez tenha sido precipitada. "Estamos vendo que nosso hiperpresidencialismo no era to hiper assim", diz o professor Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que est especialmente espantado com a agilidade de Cunha. "Ele est ativando a poltica brasileira de uma maneira impressionante." 
     Tudo sugere a boa sade da democracia brasileira, em que, pela primeira vez, o Legislativo deixa de comportar-se com a lendria submisso ao Executivo. Mas as aparncias so enganadoras. O protagonismo do Congresso tem mais a ver com interesses paroquiais dos parlamentares, de enfraquecer o governo e conquistar poder dentro do PMDB, do que com interesses do pas. A comear pelo fato de que Cunha e Renan, a dupla dinmica, numa demonstrao do cinismo galhofeiro da poltica brasileira, esto sob investigao por suspeita de envolvimento em, repita-se, barbaridades como o escndalo da Petrobras. 
     Feitas as contas, as votaes relevantes e os debates polmicos tm sido promovidos s carreiras e o resultado prtico  perto de zero, de modo que seu maior efeito tem sido marcar, e aprofundar, a j abissal fragilidade poltica do governo Dilma. De significativo, mesmo, Cmara e Senado votaram as medidas do ajuste fiscal, que integram a agenda do governo. O resto no saiu do papel. A regulamentao da terceirizao da mo de obra, aprovada na Cmara, empacou no Senado, para irritao de Cunha, que ameaou revidar retardando na Cmara as matrias do Senado. "Pau que bate em Chico bate em Francisco", disse. Nesse caso, Calheiros e Cunha brigam por motivos sonantemente ignorados. A prpria reforma poltica, que Cunha votou com rapidez inexplicada, manteve quase inalterado o atual sistema eleitoral. 
     J os interesses umbigueiros dos parlamentares tiveram saldo polpudo neste incio de legislatura. Os salrios subiram 26,3%. Agora, as excelncias ganham quase 34.000 reais, mais que a presidente da Repblica. O fundo partidrio triplicou de valor, saltando de 290 milhes para 870 milhes de reais, o maior aumento da histria. O governo est obrigado a soltar o dinheiro das emendas oramentarias dos parlamentares. O "parlashopping", o prdio de 1 bilho de reais que Cunha quer construir para os deputados, est avanando depois de aparecer de contrabando numa medida provisria. Gastos bilionrios na era dos cintos apertados. 
     Cunha, mais que Calheiros,  aliado vacilante do governo e inimigo convicto do PT. Para o eleitor que simpatiza com essas posies, a atuao de Cunha tem sido um blsamo, mas  recomendvel lembrar uma advertncia de Machado de Assis, no seu papel de arguto comentarista poltico: " bom no aplaudir por culto, nem censurar por dio". Tudo o que Cunha tem feito vem embalado com um voluntarismo e uma ponta de truculncia que comeam a incomodar os colegas. Mesmo aliados o apelidaram de "dom Eduardo I". O que mais revoltou os parlamentares foi a patrolada na reforma poltica. Cunha derrubou o relator, jogou seu trabalho de quatro meses no lixo e, no dia seguinte, com um relator que teve 24 horas para trabalhar, ps o tema em votao. 
     Graas ao descomunal desprestgio de Dilma, a velha aspirao a uma democracia dotada de um Congresso altivo, autnomo e independente finalmente foi atingida, mas o efeito no tem sido o esperado. No incio da semana passada, deputados e senadores j deixaram Braslia para emendar o feriado. Cunha e Calheiros embarcaram para o exterior. Em vez das habituais crticas pela folga exagerada, sentiu-se um alvio. Enfim, o pas ter uma trgua no protagonismo da dupla dinmica, que no ficar soltando bales de ensaio, fazendo votaes apressadas e zelando, no fundo, pelos prprios interesses. 

"Teremos ainda muitas outras polmicas, j que no vamos deixar de levar matria a votao porque um grupo do PT no quer."  Eduardo Cunha.

"Se no fizermos a reforma poltica neste momento nico de protagonismo do Legislativo, outros a faro".  Renan Calheiros


3#5 MORTE EM 45 SEGUNDOS
Peas cruciais para a pilotagem mal fixadas fizeram o helicptero em que morreu o filho do governador de So Paulo decolar sem controle quando taxiava.

     Dois meses depois da queda do helicptero que matou o filho mais novo do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), Thomaz Alckmin, mais quatro pessoas, em So Paulo, os investigadores forneceram as primeiras evidncias do que provocou a tragdia. A anlise feita pelo Centro de Investigao e Preveno de Acidentes Aeronuticos, o Cenipa, mostrou que o helicptero (modelo francs EC 155 B1 de 15 milhes de dlares e quatro anos de uso) tinha uma grave falha mecnica que o tornaria ingovernvel em qualquer situao de operao real. 
     O Cenipa revelou que estava solto um dos trs conjuntos de peas que transmitem ao rotor os comandos do piloto. O aparelho, de propriedade da Seripatri Participaes, faria seu primeiro voo depois de uma reviso planejada que durou dois meses. Como o helicptero chegou voando normalmente  oficina, refora-se a suspeita de que o erro em fixar as peas tenha ocorrido durante o processo de manuteno. 
     Por que a falha no foi detectada durante os testes de segurana que antecedem o primeiro voo de um helicptero depois da manuteno? A resposta, a essa altura das investigaes,  que a falha no se manifestou no teste de solo em que as ps ficam girando durante duas horas sem trao  equivalente ao ponto morto nos carros de cmbio manual ou  posio neutra nos automticos. Nessas situaes, as peas que causariam o desastre no so acionadas. 
     A tragdia foi desencadeada quando o piloto Carlos Haroldo Esquerdo (53 anos e trinta de experincia) "engrenou" o aparelho para taxi-lo (desloc-lo sobre as rodas) do ptio at o heliponto. Nesse instante, as peas frouxas foram acionadas e impulsionaram violentamente o helicptero para cima e para o lado. Tudo indica que Esquerdo reagiu ao susto de acordo com a regra bsica para momentos assim: deixar o aparelho voar e s depois tentar contornar a pane. Com a vibrao provocada pela falha mecnica, as ps se desprenderam do rotor e o helicptero se tornou uma pedra solta em pleno ar. Caiu sobre uma casa em Carapicuba, a 4 quilmetros de distncia da oficina, 45 segundos depois. 

A PEA QUE FALTAVA
A queda do helicptero que matou o filho de Alckmin comea a ser desvendada

1- Os testes em solo com o rotor ligado e as ps girando foram feitos e no apontaram nenhum problema. O helicptero no voa nesses testes porque as ps esto sem trao - na linguagem tcnica, com ngulo de ataque nulo.
2- A mudana de ngulo de ataque das ps  feita por trs conjuntos de peas que transmitem ao rotor os comandos do piloto. Um desses conjuntos estava solto.
3- O piloto aumentou levemente o ngulo de ataque para taxiar. Mas, por causa do defeito, o rotor inclinou-se para a esquerda, e o helicptero decolou.
4- Segundo especialistas, depois desse momento, o piloto pode ter se tornado um mero passageiro, sem nenhum controle sobre a aeronave, ou ainda tentado uma ltima manobra: com medo de que o helicptero capotasse, teria decidido subir, com a inteno de estabiliz-lo e depois descer.
5- No ar, a falha levou uma das ps a colidir com a fuselagem, o que provocou uma vibrao to violenta que derrubou o helicptero 

KALLEO COURA
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4# INTERNACIONAL 10.6.15

O JOGO DOS 9 ERROS
Um vdeo mostra que a percia apagou evidncias do apartamento do procurador argentino Alberto Nisman, atrapalhando as investigaes de sua morte.
NATHALIA WATKINS

     O procurador argentino Alberto Nisman apareceu morto em seu apartamento em janeiro deste ano. Ele acusava a presidente Cristina Kirchner e seus funcionrios de acobertar a autoria iraniana do atentado contra a Amia, em 1994. A soluo desses dois crimes est paralisada por manobras polticas articuladas pelo governo de Cristina. A inteno de melar as investigaes est sendo ajudada pela incompetncia da polcia argentina. Na semana passada, o jornalista Jorge Lanata mostrou em seu programa Periodismo para Todos um vdeo em que se v o trabalho dos peritos dentro do apartamento de Nisman, aps sua morte. As cenas evidenciam uma srie de erros primrios das tcnicas forenses. "Alguns so omisses graves, atitudes que imaginvamos j extintas", diz o especialista argentino em percia forense Javier Pacham, da Universidade de La Plata (veja exemplos ao lado). A esperana de um esclarecimento do caso foi depositada nos dados contidos no laptop de Nisman. Fontes citadas pelo jornal Clarn indicam que houve mais de sessenta entradas no seu notebook aps sua morte. " plausvel que arquivos tenham sido acessados ou transferidos para outro computador", diz Gustavo Batistuzzo, do Instituto Brasileiro de Peritos. 

NEGLIGNCIA
O vdeo no apartamento onde foi encontrado o corpo de Nisman foi feito pelos prprios peritos.
1- ERRO: a promotora Viviana Fein deixou pegadas sujas de sangue no banheiro
O CERTO: Viviana deveria ter acompanhado o trabalho sem contaminar o local

2- ERRO: os peritos entraram no prdio j com a roupa branca
O CERTO: a rua  um ambiente contaminado e a vestimenta deveria estar esterilizada para a investigao

3- ERRO: os cartuchos extrados da arma foram colocados no bid
O CERTO: os objetos deveriam ter sido separados para anlise, evitando-se alterar a cena

4- ERRO: pedaos de cabelo no piso do banheiro no foram coletados
O CERTO: o material poderia indicar a presena de outras pessoas no momento da morte

5- ERRO: os peritos no usaram proteo nos ps nem na cabea
O CERTO: todos deveriam ter usado toca e sacos nos sapatos para no contaminar o lugar

6- ERRO: os peritos colocaram vrios objetos sobre a mesa da cozinha
O CERTO: a cena do crime inclui todo o apartamento e deveria ter sido preservada

7- ERRO os peritos sujaram o lado da arma que estava sem sangue, impedindo a coleta de digitais
O CERTO: o lado limpo da arma deveria ter sido preservado

8- ERRO: alm dos peritos, muitas outras pessoas entraram no apartamento
O CERTO: apenas profissionais envolvidos na investigao deveriam estar no local

9- ERRO: provas foram coletadas sem o uso de luvas
O CERTO: o procedimento padro  usar um novo par de luvas a cada evidncia retirada
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5# GERAL 10.6.15

     5#1 ESPECIAL  A CASA AGORA  DELES
     5#2 ESPECIAL  ELES VIVEM MUITO MAIS
     5#3 GENTE
     5#4 ESPORTE  A FIFA  AQUI
     5#5 VIDA DIGITAL  UM LBUM ABERTO
     5#6 HISTRIA  O GIGANTE PRAGMTICO
     5#7 SOCIEDADE  BEM-VINDOS AO BRASIL... ...E VIREM-SE
     5#8 MEDICINA  CONFISSES BRUTAIS

5#1 ESPECIAL  A CASA AGORA  DELES
Pesquisa do IBGE revela que, no Brasil, o nmero de famlias que criam cachorros j  maior do que o de famlias que tm crianas. Causas demogrficas e econmicas mostram que o fenmeno, similar ao de pases ricos, vai se acentuar daqui para a frente.
CECLIA RITTO E BIANCA ALVARENGA

CRESCENDO PRA CACHORRO
Enquanto a populao de crianas deve continuar a encolher no Brasil, a de ces seguir se multiplicando, indicam projees (em milhes)
2013
CES: 52
CRIANAS: 45

2017
CES: 62
CRIANAS: 43

2020
CES: 71
CRIANAS: 41

Fontes: Associao Brasileira da Indstria de Produtos para Animais de Estimao (Abinpet), com base nos dados do mercado, e projeo sobre pesquisas do IBGE.

TURMONA
Alm dos golden retrievers Peter e King (na foto), a atriz Carol Castro, 31 anos, recm-separada, acomoda em sua casa um labrador e um cane corso  sem falar nos trs gatos. Para essa turma, mantm no quintal um canil do tamanho de "meia quadra de vlei de praia". "No durmo com eles, no ponho fitinha. Minha relao  de ser humano com animal, mas com muito carinho".

EM TERRA E NO MAR
Jogadora de polo aqutico, a carioca Ceclia Canetti, 28 anos, mantm uma conta no Instagram s para exibir as estrepolias de seus labradores, Polo e Mika. Com a dupla, pratica stand-up paddle. A imagem dela com os ces sobre uma prancha no mar fez tanto sucesso que chegam a ser reconhecidos na rua. Por eles, Ceclia se esmera. "Deixo at de viajar no fim de semana", diz.

OS DONOS DO LAR - "As crianas no passam de substitutos patticos para as pessoas que no podem ter bichos", ironiza a charge da revista americana New Yorker.

     Os bichinhos de estimao nunca foram to acolhidos, mimados, enfeitados, bem cuidados e desejados no Brasil quanto agora. Nunca mesmo: uma questo includa na Pesquisa Nacional de Sade, parte de um levantamento indito realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE), mostrou que o nmero de ces nos lares brasileiros superou o de pequenos humanos: de cada 100 famlias no pas, 44 criam cachorros, enquanto s 36 tm crianas. A pesquisa foi feita em 2013, mas o resultado do cruzamento dos dados saiu apenas na semana passada. Ele apontou a existncia de 52 milhes de ces, contra 45 milhes de crianas de at 14 anos  uma situao que se assemelha  de pases como o Japo (16 milhes de crianas, 22 milhes de animais de estimao) e os Estados Unidos (em 48 milhes de lares h ces; em 38 milhes h crianas). Nesses lugares, assim como no Brasil, o principal motivo para essa revoluo dos bichos (bem mais amigvel que a descrita pela rebelio metafrica de George Orwell)  de ordem demogrfica. 
     Alm de entreterem as famlias que tm filhos, os bichinhos so frequentemente a alternativa escolhida para preencher o vazio em lares com pouca gente  e esses lares tm se tornado cada vez mais numerosos. Isso porque, na maioria dos pases desenvolvidos, as mulheres vm tendo menos bebs, e, quando os tm, decidem faz-lo mais tarde. Ao mesmo tempo, h o aumento da populao idosa, cujos filhos j saram de casa. Ninho e bero vazios reunidos, sobram espao, tempo e dinheiro para os bebs de quatro patas. 
     Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios (Pnad), outro mapeamento do IBGE, a mdia de filhos por mulher, de 6,6, em 1940, baixou para 1,9, em 2010. Em contrapartida, a faixa etria em que as mulheres decidem ter filhos vem aumentando  entre as que possuem renda superior a cinco salrios mnimos, a idade  32 anos. A mesma Pnad confirma que o nmero de idosos no pas tem subido  a proporo deles na populao foi de 8,2%, em 2000, para 11,7%, em 2015. Outro ndice que atesta a mudana no perfil da populao brasileira  o que mostra o aumento dos domiclios onde mora uma s pessoa: em nove anos, houve um crescimento de 35%, sendo a maior parte dos chamados "arranjos unipessoais" composta de pessoas com mais de 50 anos  potenciais pais de um tot. 
     Aos motivos demogrficos, juntam-se os econmicos para explicar a multiplicao dos bichos. O alto custo de criao de filhos e o aumento do valor do metro quadrado dos imveis residenciais nas grandes cidades contribuem para afugentar delas as famlias que tm crianas. Em Portland, no Estado do Oregon, autoridades constataram um crescente xodo de famlias com filhos pequenos. Pesquisa com 300 casais que haviam deixado a cidade revelou que, na maior parte dos casos, a deciso de mudar se deu sobretudo por causa do alto preo das moradias e do desejo de oferecer aos filhos mais espao. So questes que afligem menos famlias sem crianas ou pessoas que moram ss. 
     Por tudo isso, a populao canina deve continuar crescendo no Brasil, enquanto a de crianas seguir caindo, indicam as projees. Em 2020, haver no pas 41 milhes de crianas e quase o dobro disso de ces: 71 milhes de animais, de acordo com a Associao Brasileira da Indstria de Produtos para Animais de Estimao (Abinpet). Significa um aumento de 4,5% de cachorros ao ano  clculo que toma como base a evoluo do mercado desde 2007. Para efeito de comparao, no mesmo perodo a populao infantil brasileira vai encolher, ano a ano, 1,3%. "Esse fenmeno tambm tem relao com a subida da renda das famlias. Com menos filhos, sobra dinheiro para os animais", diz o demgrafo Reinaldo Gregori, diretor da Consultoria Cognatis. Nos Estados Unidos, onde o maior impulso de avano da renda j passou, a populao canina est praticamente estabilizada: foi de cerca de 70 milhes, em 2011, para 71,2 milhes, em 2012, e para 71,6 milhes, em 2013. 
     O Brasil ter, portanto, cada vez mais cachorros e menos bebs. Isso  ruim? No necessariamente. A reduo no nmero de crianas compe o quadro do chamado bnus demogrfico, quando a populao ativa de um pas supera o contingente improdutivo. Nada mais favorvel.  o momento ideal para semear o terreno para um ganho de produtividade, j que a populao estudantil encolhe e d para investir mais e melhor em cada criana. "Como a necessidade por mais escolas cai,  possvel centrar fogo na qualidade", diz o demgrafo Jos Eustquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Cincias Estatsticas do IBGE. "Os pases mais desenvolvidos aproveitaram muito bem essa oportunidade. O Brasil no. Agora precisa correr." Calcula-se que essa janela aberta pela demografia durar at 2030, mas alguns especialistas avaliam que ela se fechar antes, em 2020. 
     A descoberta mais antiga dos restos de um dono e seu cachorro, enterrados juntos, ocorreu em um stio arqueolgico em Israel e data de 14.000 anos atrs. Desde ento, o processo de  transformao do co no melhor amigo do homem tem sido um tremendo sucesso. Em seu desenvolvimento evolutivo, o co ganhou novos formatos de arcada dentria, mais suaves, e seu comportamento ficou mais dcil. O convvio com humanos tornou-o capaz de reconhecer as expresses faciais dos donos e mostrar-se triste quando percebe que eles esto infelizes. Ces roem unhas, tm crise de ansiedade e perdem o apetite por causa de stress. Da parte dos humanos, pesquisa recente lanou luzes sobre os motivos que nos fazem amar nossos bichos de estimao. Parte da explicao est na oxitocina, hormnio produzido pelo hipotlamo e associado ao desenvolvimento do afeto. A substncia  conhecida como o hormnio do amor. A pesquisa mostrou que o nvel de hormnios neurais, entre eles a oxitocina, aumenta quando as mulheres interagem com seus bichos ou vem fotos deles, em uma reao cerebral semelhante  causada quando olham os prprios filhos. 
     "H muitas semelhanas na relao entre a me e o filho. Para a maior parte dos donos de animais, o cachorro  considerado membro da famlia", diz Eduardo Aron, diretor-presidente da Guabi Petcare e que anteriormente trabalhou com o mercado de produtos para bebs. A atriz Carol Castro concorda. Recm-separada e sem filhos, ela tem quatro ces, e dos grandes: o labrador Bris, os golden retrievers Peter e King e um imenso cane corso, Kron. "Minha relao com ces no  de me e filho, mas eles precisam do meu cuidado, assim como eu preciso do carinho deles. Animal  um amor com pelos", diz. 
     Com tantos cachorros em busca de carinho e tantos donos loucos para mim-los, o mercado voltado para pets no conhece crise. "Mantivemos nossa taxa de crescimento. No ano passado, vendemos mais de 16 bilhes de reais em produtos", explica Jos Edson de Frana, presidente executivo da Abinpet. O Brasil j  o segundo entre os maiores mercados mundiais para produtos de animais domsticos, atrs apenas dos Estados Unidos. Os gastos com ces e gatos so superiores aos realizados com bebs. 
     Rao gourmet, spa de cachorros, ioga canina e TV a cabo para ces (ateno: "para", no sobre) so exemplos de servios que j existem por a  e que ficam na fronteira entre o luxo e o exagero mais delirante. Mas  parte da estratgia desse mercado bilionrio e promissor tentar transformar os adorveis bichinhos em miniaturas de seres humanos que eles nunca sero. Nunca sero? Bem, basta que abanem o rabinho e faam aquele olhar doce que a gente se esquece disso na hora. 

BARATO NO SAI
Lgia Ferreira, diretora de escola infantil, calcula que gasta um quinto de seu salrio para cuidar de seus nove "bebs". Deles, trs da raa shih-tzu tiveram de passar por tratamento veterinrio e uma operao. "Fora os gastos com consultas, cirurgias e medicao, o investimento de 2000 reais nos equipamentos para dar banho e fazer tosa em casa, gasto 3000 reais com vacinao anualmente e no descuido da alimentao." Apenas com comida e petiscos, a conta bate em 380 reais por ms.

VIDA DE CO NO BRASIL
J existem mais lares com cachorros do que com crianas no pas
44% - Lares com pelo menos um CACHORRO
36% - Lares com pelo menos uma CRIANA

POR REGIO
REGIO NORTE
Domiclios com ces: 48%
Domiclios com gatos: 23%

REGIO NORDESTE
Domiclios com ces: 36%
Domiclios com gatos: 24%

REGIO CENTRO-OESTE
Domiclios com ces: 20%
Domiclios com gatos: 14%

REGIO SUDESTE
Domiclios com ces: 42%
Domiclios com gatos: 14%

REGIO SUL
Domiclios com ces: 59%
Domiclios com gatos: 19%

Gasto mdio anual com um animal de estimao no Brasil (em reais)
CES: 3404
GATOS: 2613

Fontes: IBGE, Comisso de Animais de Companhia (Comac) e Associao Brasileira da Indstria de Produtos para Animais de Estimao (Abinpet)

UM SER SOCIAL - Restaurante pet friendly na Califrnia. Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, a maior parte dos donos de cachorros os considera um membro da famlia.
PREFERNCIA NACIONAL - No Japo, o nmero de bebs  menor que o de ces. Mas o tratamento  praticamente igual...

UM GIGANTE NO MUNDO ANIMAL
O Brasil possui a segunda maior populao mundial de ces e gatos domsticos e  dono do segundo maior mercado de produtos para pets.

PASES COM MAIS CACHORROS (em milhes) 2014
1 Estados Unidos 72,4
2 Brasil 52,2 (dados do IBGE)
3 China 27,7
4 Mxico 25,2
5 Rssia 15,9
6 Filipinas 13
7 ndia 12,6
8 Argentina 11,4
9 Japo 10,4
10 frica do Sul 9,8

PASES COM MAIS GATOS (em milhes) 2014
1 Estados Unidos 74,3
2 Brasil 22,1 (dados do IBGE)
3 Rssia 21,7
4 Frana 11,8
5 China 11,6
6 Alemanha 11,6
7 Japo 10
8 Ucrnia 9,8
9 Inglaterra 9,1
10 Canad 8,7

O MERCADO DOS PETS
Faturamento total, em bilhes de dlares  2014
Estados Unidos 30,4
Brasil 7,2
Inglaterra6,9 
Frana 5,7
Alemanha 5,6
Japo 5,2
Itlia 3,6
Rssia 3,3
Austrlia 3
Canad 2,8
NO MUNDO 98,4

Fontes: Euromonitor e Associao Brasileira da Indstria de Produtos para Animais de Estimao (Abinpet)

COM REPORTAGEM DE HUGO PERNET E THAIS BOTELHO


5#2 ESPECIAL  ELES VIVEM MUITO MAIS
Os extraordinrios progressos da medicina veterinria ocorridos nas ltimas trs dcadas deram aos animais de estimao mais tempo de vida  e em melhores condies.
CAROLINA MELO

     Um cachorro que nascer hoje viver, em mdia, a depender da raa, dezoito anos. H trs dcadas, um cozinho teria metade desse tempo de vida  e, muito provavelmente, com sobressaltos de sade. O aumento da longevidade dos bichos, de nove anos,  quase to extraordinrio quanto o dos seres humanos no mesmo perodo, que foi de quatro anos a mais. No se deve comparar o ciclo de existncia de uns e outros, mas pr as duas medidas na balana tem valor didtico,  um atalho para entender como os animais vo bem agora. 
     A sobrevida  possvel graas a recentssimos avanos da medicina veterinria. Tome-se, por exemplo, o campo da preveno de doenas. Nos anos 70, havia uma nica vacina e para uma nica doena  a raiva, afeco causada por um vrus que se instala no sistema nervoso central dos bichos. As cinco vacinas disponveis atualmente cobrem quinze males letais. Hoje, os aparelhos de diagnstico existentes nas clnicas e nos hospitais veterinrios de primeira linha assemelham-se aos utilizados nos melhores centros de medicina para humanos. A rigor, a eficcia  igual nos dois universos. A diferena reside nos detalhes, especialmente na adaptao dos aparelhos. 
     Os tomgrafos, sofisticados equipamentos de exame que mapeiam o organismo por meio de uma sucesso de feixes de raios X, foram programados para vasculhar direes diversas no caso dos ces. Isso porque os rgos dos cachorros so menores e, algumas vezes, com formatos diferentes.  o que ocorre com o trax. Nos ces, a estrutura  afilada. Nos humanos, alargada. Outra mudana: as agulhas dos testes de sangue dos cachorros so mais finas  os vasos caninos tm a metade do calibre dos vasos humanos. 
     O aprimoramento dos tratamentos oferecidos aos animais domsticos tem reflexo na formao dos mdicos. Desde os anos 2000, a veterinria ganhou especialistas  exatamente como acontecera, poucas dcadas antes, na medicina dos humanos. O corpo clnico dos hospitais veterinrios conta com cardiologistas, oncologistas, endocrinologistas e intensivistas.  
     No entanto, de nada serviriam os incrementos na medicina veterinria sem o carinho e a ateno humanos. Um estudo conduzido pelo Instituto do Corao, em So Paulo, em parceria com o Hospital Veterinrio Sena Madureira, comprovou a importncia dessa proximidade para a sade dos animais. Ao longo de seis meses, os pesquisadores avaliaram o comportamento de 46 ces com problemas cardacos. Ao mesmo tempo, submeteram os donos dos animais a questionrios sobre o quadro clnico dos bichos. Concluso: a acurada das respostas foi a mesma dos exames laboratoriais. Os donos conheciam seus animais e reagiam aos sintomas da doena  perfeio. Diz o veterinrio Mrio Marcondes, diretor do Sena Madureira: "A relao de proximidade  uma ferramenta de diagnstico to poderosa quanto os melhores recursos mdicos". 

BICHOS TRATADOS COMO GENTE
Os avanos na medicina veterinria que permitiram, em trs dcadas, um acrscimo de nove anos  longevidade dos ces

Raios X - O aparelho permitiu detectar fraturas sseas, inflamaes e infeces pulmonares. O exame tambm passou a auxiliar na localizao de objetos acidentalmente engolidos, evitando problemas intestinais. 
Imunizao - A criao de vacinas contra doenas virais comuns no animal, como hepatite e parvovirose, reduziu os casos dramticos de diarreia severa.
Ultrassom - O mtodo de diagnstico facilitou a identificao de cnceres em fases extremamente iniciais (com 1,5 milmetro de dimetro) nos rins, fgado e intestinos. 
Exames de sangue - Doenas como diabetes e colesterol e triglicrides elevados, comuns, sobretudo, em animais domsticos com estilo de vida sedentrio, comearam a ser monitoradas em testes sanguneos. 
Tomgrafo - O equipamento de imagem passou a identificar derrames e tumores em rgos de difcil acesso, como os pulmes e a cabea. 
Ecocardigrafo - O aparelho diagnostica doenas do msculo e das vlvulas do corao, problemas frequentes principalmente em animais com idade avanada.
Equipamentos laboratoriais automatizados - Instrumentos sofisticados encurtaram o tempo do resultado dos exames de sangue - de duas horas para quatro minutos. A reduo permite que o co seja avaliado pelo mdico j com o diagnstico da doena em mos. 
Marca-passo - O dispositivo, que regula o ritmo cardaco,  utilizado no caso de arritmia. A doena tem origem congnita, mas tambm est associada ao envelhecimento. 

TEMPO MDIO DE VIDA
Anos 80: 9 anos
Anos 90: 11 anos
2000: 15 anos
2015: 18 anos
Fontes: Fernanda Fragata, veterinria, e Mrio Marcondes, diretor do Hospital Veterinrio Sena Madureira, em So Paulo.


5#3 GENTE
Fernanda Allegretti e Thais Botelho

Muito prazer, Caitlyn "Estou muito feliz, depois dessa longa jornada, de estar vivendo quem realmente sou. Bem-vinda ao mundo, Caitlyn." Assim o medalhista olmpico de decatlo BRUCE JENNER, 65, estreou, com nova identidade, sua conta no Twitter. No mesmo dia, a revista Vanity Fair divulgou a primeira foto de Bruce aps passar por cirurgias de feminilizao  segundo o prprio, no houve alterao genital. Em apenas quatro horas de existncia, Caitlyn j havia quebrado o recorde do presidente Barack Obama no Twitter e conquistado 1 milho de seguidores. Bruce casou-se trs vezes. Uma delas com a me da socialite Kim Kardashian, Kris, que se disse desapontada com a revelao: "Por que ele no explicou tudo isso para mim?". J Kim, a exemplo dos seis filhos biolgicos de Bruce, demonstrou apoio ao padrasto. "Seja feliz", postou ela tambm no Twitter. 

PEDALA, DILMA, PEDALA
Quinze quilos mais magra e com um visual esbelto, a presidente DILMA ROUSSEFF, 67, resolveu unir-se a seu colega de partido, o prefeito paulistano Fernando Haddad (PT), e estimular o uso das bicicletas. Trocou as caminhadas que costumava fazer no Palcio da Alvorada pelas pedaladas, sempre na companhia de dois seguranas igualmente paramentados com capacete, roupa de ginstica e luvas. Na percepo dos interlocutores do Planalto, ainda que a presidente use uma bicicleta de quase 3000 reais, ao aparecer se exercitando ela transmite uma imagem "mais humana e mais prxima da rotina das pessoas". 

CHEIRO DE TRAIO NO AR
A prataria e os cristais do Palcio de Buckingham, em Londres, esto estremecendo com os rumores de que o prncipe CHARLES estaria disposto a se divorciar de sua esposa, CAMILLA PARKER-BOWLES, a duquesa da Cornualha. H dezenove anos, ao se separar da princesa Diana, com quem protagonizou o "casamento do sculo", Charles admitiu que Camilla sempre havia sido o grande amor de sua vida, e com ela se casou, apesar do desconforto que causou na realeza. Agora, a duquesa teria sido flagrada aos beijos com um ator de TV local. Consta que ela conheceu o artista, que tambm atua no teatro, numa festa, em 2011, e estaria pedindo o equivalente a 1 bilho de reais para encerrar a unio de dez anos com o herdeiro da coroa britnica. 

CLUBE DO BOLINHA
Quatro meses aps o fim do relacionamento com a modelo russa Irina Shayk, uma das namoradas com quem desfilou em pblico, o portugus CRISTIANO RONALDO, considerado um dos melhores jogadores de futebol do mundo, acaba de entrar em frias e viajou para Saint-Tropez. No paradisaco balnerio francs, estreou o repouso com uma baixaria: urinou atrs de um carro na rua e foi flagrado por um fotgrafo. Depois, ps o bronzeado em dia a bordo de um iate daqueles que s os milionrios tm. Estranhamente, estava em companhia apenas de homens. Nada de mulheres deslumbrantes se exibindo de biquni na proa, como costuma acontecer nesse tipo de passeio de gente famosa. Os amigos se ajudaram mutuamente a espalhar protetor solar pelo corpo e bailaram animadamente a dana do trenzinho ao som de merengues caribenhos. 


5#4 ESPORTE  A FIFA  AQUI
O tal padro de qualidade liderado pelo corrupto Blatter, sabemos agora, era movido a propina. Para o Brasil, um ano depois da Copa, a herana so estdios vazios e deficitrios.
THIAGO PRADO E LESLIE LEITO

     Enfim o escndalo chegou ao topo, e novos captulos ainda sero escritos. Na tera-feira, 2 de junho, quatro dias depois de ser reeleito para seu quinto mandato na presidncia da Federao Internacional de Futebol (Fifa), o suo Joseph Blatter convocou a imprensa e renunciou. Sentia, disse, no ter "apoio no mundo futebolstico". O que ele no tem, na verdade,  a distncia requerida a algum na sua posio do lamaal de corrupo, falcatruas e desvios de dinheiro que engolfou a Fifa nas ltimas semanas e j levou sete dirigentes  inclusive o brasileiro Jos Maria Marin, ex-presidente da CBF   priso. A investigao, conduzida pela polcia americana, bateu nos ltimos dias em Jrme Valcke, brao-direito de Blatter, e foi a que o chefe capitulou. Nos seus termos: ele pretende permanecer no cargo at a realizao de nova eleio, o que s deve acontecer em dezembro. O envolvimento de Valcke tem um gostinho especial para os brasileiros, por ter sido ele o cartola que, meses antes da Copa do Mundo de 2014, cobrou do Brasil, em expresses nada educadas (ameaando um "chute no traseiro"), mais empenho na aplicao do celebrado e caro padro Fifa s obras do torneio. Padro, sabemos agora, ancorado em estruturas corruptas e que deixaram um legado nefasto para o Brasil. Um ano depois da Copa, o pas do futebol tem estdios vazios, todos construdos a valores inexplicveis e amargando prejuzos  ao contrrio da Fifa, alis, que amealhou lucro de 16 bilhes de reais com a megafesta de 2014. 
     Surpresa? No exatamente, mas um olhar detalhado sobre as contas chega a ser assustador. A partir de um levantamento indito, VEJA analisou balanos financeiros de concessionrias das arenas, um ramo de negcios praticamente inaugurado com a Copa  antes, elas eram tocadas pelo poder pblico ou pelos clubes. A pesquisa mostra que as obras nos doze estdios atingiram um valor total de 8,4 bilhes de reais, 42% acima do previsto. Nenhum deles conseguiu os patrocnios, as concesses comerciais e a lotao das arquibancadas que garantem lucratividade. O resultado  um prejuzo que chega a quase 700 milhes de reais, sendo 600 milhes nos seis que se preparam para sediar a Olimpada do Rio, em 2016. Que a Arena Amaznia, de Manaus, daria prejuzo era sabido e anunciado. Mas e o Maracan? O Mineiro? Os consrcios de empreiteiras que assumiram a gesto desses dois estdios contavam com o efeito da Copa padro Fifa (ah, esse padro), que voltaria a encher as arquibancadas de torcedores animados com as instalaes novas e modernas e os craques em campo. Deu-se o 7 a 1, o torcedor continuou em casa, os craques se foram e a dura realidade se sobreps. 
     No Maracan, a construtora Odebrecht, lder do consrcio que administra o estdio, acumula h dois anos perdas de cerca de 150 milhes de reais. Ao assumir a gesto, tinha em mos um estudo segundo o qual s haveria lucro se a mdia de pblico chegasse a 30.000 pessoas por jogo; neste ano, empacou em pouco mais de 21.000. Outro projeto para aumentar a receita, a construo de um shopping center nas imediaes, no vingou. Perdendo dinheiro sem parar, a empreiteira desde janeiro ameaa romper o contrato com o governo estadual  uma fonte de dor de cabea para o Comit Olmpico Internacional, j que no Maracan sero realizadas as cerimnias de abertura e encerramento da Olimpada de 2016. Aps vrias reunies, a Odebrecht obteve do governador Luiz Fernando Pezo uma reduo de seus encargos: pelo contrato inicial, teria de investir 594  milhes de reais nos prximos 35 anos; agora, o valor deve baixar para 120 milhes de reais, 20% da quantia inicial. VEJA apurou que a empreiteira tende a aceitar a proposta, mas vai continuar pressionando para conseguir mais cortes. O fim da negociao s deve ocorrer depois da Olimpada. 
     A frmula para ganhar dinheiro com estdios existe e j foi amplamente testada na Europa. O Real Madrid fatura mais de 400 milhes de euros por ano com o Santiago Bernabu; seu maior rival, o Barcelona, pouco menos. Aos estdios lotados, fruto do desfile de craques em campeonatos bem organizados, soma-se a renda com patrocnios, camarotes e concesses de comrcio. No Brasil ocorre o oposto: pblico fraco e falta de alternativas de renda  sem falar na violncia das torcidas organizadas. "Muitos fatores afastam o pblico, como o preo do ingresso, o horrio e a qualidade dos jogos. Mas o pior  a violncia", diz Amir Somoggi, consultor de marketing e gesto esportiva. 
     Uma das sadas para alavancar o faturamento seria a venda dos chamados naming rights, quando uma marca atrela seu nome ao do estdio. Mas a prtica ainda no encantou os anunciantes brasileiros. Dois estdios, Arena Pernambuco e Fonte Nova, de Salvador, afixaram o nome de uma cervejaria  sua fachada, em troca de 100 milhes de reais ao longo de dez anos para cada um, mas ningum usa a nova denominao. Para agravar, a Rede Globo, a principal detentora dos direitos de transmisso dos jogos, no faz esse tipo de propaganda gratuita. "Naming rights  uma coisa que ainda vai pegar no Brasil. Trata-se de um investimento de longo prazo", diz Paulo Remy, vice-presidente do conselho da WTorre, responsvel pela nova arena do Palmeiras, que tem o maior  contrato do gnero do Brasil: 300 milhes de reais por vinte anos, assinado por uma seguradora. Vender o direito de dar nome ao estdio era o anunciadssimo plano do Corinthians  a cifra prevista era 400 milhes  para resolver os problemas financeiros do Itaquero. Em matria de pblico, o estdio causa inveja: tem a melhor mdia de ocupao do pas, 64%. Mas a venda de camarotes no deslancha, devido aos altos preos, e o sonho dos naming rights no se concretizou, inclusive pelo fato de que, no meio tempo, solidificou-se o apelido de Itaquero, indelvel. Resultado: no h caixa para honrar a dvida com a construo, de 395 milhes de reais. 
     Sair desse jogo to embolado no ser tarefa fcil. No lado dos cartolas, Marin, ex-presidente da CBF, continua na cadeia em Zurique, com extradio pedida pelos Estados Unidos. Seu sucessor, Marco Polo Del Nero, encontra-se perigosamente prximo das denncias. E, na semana passada, a Polcia Federal desencavou um inqurito que hibernava numa de suas gavetas, indiciando o antecessor dos dois, Ricardo Teixeira, pelos crimes de lavagem de dinheiro, evaso de divisas, falsidade ideolgica e falsificao de documento. No palco do espetculo, os estdios, empreiteiras descapitalizadas pela Operao Lava-Jato ainda fazem presso para deixar de perder dinheiro. Sobre os times, ento, melhor nem falar. Tomando emprestada a linguagem dos comentaristas esportivos, o Brasil definitivamente no est na sua melhor fase. 

Maracan (Rio de Janeiro)
Custo: 1,2 bilho de reais  o dobro do previsto
Prejuzo da concessionria: 150 milhes de reais
Situao: a Odebrecht, que administra o estdio, ameaa devolv-lo ao governo do Rio de Janeiro se as condies do contrato no mudarem.

Itaquero (So Paulo)
Custo: 1,2 bilho de reais  46% acima do previsto
Dvida pendente: 395 milhes de reais
Situao: tem a melhor mdia de pblico do Brasil, mas no conseguiu saldar compromissos com a planejada venda de camarotes e patrocnio.

Fonte Nova (Salvador)
Custo: 689 milhes de reais  16% acima do previsto
Prejuzo da concessionria: 41 milhes de reais
Situao: as duas empreiteiras que administram o estdio esto enroladas na Operao Lava-Jato - a Odebrecht e a OAS - essa ltima em recuperao judicial.

Mineiro (Belo Horizonte)
Custo: 695 milhes de reais - 63% acima do previsto
Prejuzo da concessionria: ao menos 82 milhes de reais
Situao: o governo mineiro repassa recursos para o consrcio das empreiteiras Construcap, Egesa e HAR para cobrir suas perdas.

Arena Amaznia (Manaus)
Custo: 669,5 milhes de reais 30% acimado-previsto
Prejuzo do governo estadual: 4,1 milhes de reais
Situao: fora da rota dos shows e grandes eventos, permanece fechado a maior parte do tempo  da as perdas no serem to vultosas

Man Garrincha (Braslia)
Custo: 1,4 bilho de reais - quase o dobro do previsto
Prejuzo do governo estadual: 5,9 milhes de reais
Situao: com poucas partidas e pblico no estdio, o governo do DF tenta repass-lo para a iniciativa privada, mas faltam interessados.


5#5 VIDA DIGITAL  UM LBUM ABERTO
O Google Fotos oferece um servio gratuito de armazenamento  sem limites  em troca de acesso da empresa s imagens pessoais. Tudo indica que a gerao do smartphone vai topar abrir mo da privacidade.

     A maior parte dos recursos do Google Fotos, disponvel na web e em aplicativos para smartphones e tablets, j era explorada por concorrentes, como os servios de armazenamento da Apple, o iCloud, e do Dropbox: guardar fotos e vdeos na nuvem, oferecer um programa de edio, criar lbuns de acordo com a localidade onde uma fotografia foi clicada e facilitar o compartilhamento para a lista de contatos. Por que, ento, o produto do Google, que existia, mas recebeu importante atualizao no ltimo dia 28 no tradicional evento anual no qual o gigante americano de busca mostra suas apostas para o futuro, chamou tanta ateno e rapidamente despertou a ira dos paladinos da preservao da privacidade na era digital? 
     A resposta no est na superfcie, e a inteno do Google  que esse detalhe realmente soe imperceptvel. Dono do mais avanado algoritmo a servio da organizao e minerao de dados, elemento-chave do site de buscas, o Google aplicou o truque ao novo programa. Alm de compilar as imagens, sem limite de espao, o Fotos organiza automaticamente arquivos de acordo com temas variados, separando-os em pastas. Busque por "frias em Nova York durante uma nevasca" e as imagens aparecero. Famlia? Despontam retratos com filhos. H erros, especialmente no reconhecimento de rostos, mas  certo que desaparecero com o tempo. O Google Fotos, como todas as ferramentas de dados da empresa, deve ganhar preciso com o uso frequente. 
     Quer dizer, ento, que o Google ter acesso aos hbitos e gostos das pessoas ao vasculhar lbuns pessoais? Sim. Mas no  diferente do que j faz, e a gerao do smartphone parece ter topado abrir pginas da vida particular em troca de qualidade de produtos digitais, sobretudo se forem gratuitos. O Gmail, em 2004, produziu preocupaes similares. O servio de e-mail no tem limite,  integrado a redes sociais e trabalha com um sistema detalhista de pesquisas por mensagens. Porm, acessa dados privados e os utiliza para vender anncios direcionados. O maior servio de e-mails do planeta tem hoje 1 bilho de inscritos. Portanto, a defesa da privacidade no foi mesmo decisiva. O Fotos  o Gmail das imagens. Pela mesma lgica, os temores com a novidade sero abafados assim que milhes forem atrados  inveno, rpida e eficiente. Na internet, h uma regra irrevogvel: se  til e grtis, d certo e esmaga os concorrentes.


5#6 HISTRIA  O GIGANTE PRAGMTICO
ANA CLARA COSTA 

Atuar em Hollywood, participar da direo de uma das maiores empresas do mundo, desbravar a poltica a ponto de, em menos de duas dcadas, alcanar o posto de presidente, alm de ser um dos principais artfices do fim da Guerra Fria. Realizar um dos feitos descritos acima j comporia uma vida especial. Alcanar todos eles aconteceu apenas com Ronald Reagan (1911-2004). No  toa, o historiador americano H.W. Brands considera que o calhamao de 805 pginas que escreveu sobre o ex-presidente, que acaba de ser lanado nos Estados Unidos,  modesto para fazer jus  sua histria. Em Reagan: The Life, Brands conta o que encontrou ao vasculhar seus dirios e arquivos guardados pela Agncia de Segurana Nacional, que s vieram a pblico recentemente. Trata-se da primeira biografia feita com base nesses documentos. Brands conclui que Reagan foi um gigante: "Ele tinha o poder de engajar as pessoas e costurar alianas sem trair seus princpios. No se pode entender a histria recente sem conhecer Ronald Reagan". Leia trecho da entrevista do historiador a VEJA. 

O MUNDO QUE ELE CRIOU
Reagan est entre os maiores presidentes dos Estados Unidos pelo impacto que teve no campo da economia e da poltica internacional. Vivemos em um mundo que funciona sob as regras que ele criou. Sob essa tica, o seu grande contendor no sculo XX  Franklin Delano Roosevelt. Alguns diro que Roosevelt foi um presidente terrvel, que abriu as portas do pas para o socialismo ao criar um sistema de bem-estar social. Diro coisas semelhantes sobre Reagan. Mas mesmo os que so crticos da poltica que eles criaram tm de reconhecer que ainda vivemos sob seu impacto. Poucos presidentes deixam marcas desse tipo. Reagan  um deles. 

DE DEMOCRATA A REPUBLICANO 
O primeiro envolvimento poltico de Reagan foi no campo democrata. Sua transio para o campo conservador se deu em dois passos. Primeiro, nos anos 50, houve a "caa s bruxas" promovida pelo senador Joseph McCarthy, que tentou identificar simpatizantes do comunismo em diversos setores da vida americana, inclusive no meio artstico. Reagan era ator em Hollywood e tinha um cargo importante no Screen Actors Guild (SAG), o sindicato da categoria. Reagan teve embates duros com a ala socialista do sindicato e foi acusado de ser dedo-duro. Chegaram a amea-lo fisicamente. E isso o deixou com um rano incancelvel em relao s ideias socialistas e a tudo o que, no partido democrata, remetesse ao socialismo. Outro momento decisivo para sua mudana partidria foi quando abandonou a carreira em Hollywood e foi trabalhar na General Electric como alto executivo, uma espcie de porta-voz. Nesse perodo, entre as dcadas de 1950 e 1960, Reagan vivenciou as dificuldades impostas aos negcios nos Estados Unidos. Havia ainda efeitos do New Deal na economia americana que prejudicavam a vida empresarial. E, por ltimo, como Reagan recebia altos salrios, tambm pagava as mais altas alquotas de imposto. Por isso, desenvolveu ojeriza s mordidas profundas do Fisco. 

CONSERVADOR, MAS NO INTRANSIGENTE 
Reagan acreditava no livre mercado, na presena pequena do Estado na economia e na desburocratizao. Se o conservadorismo, por definio,  a defesa desses ideais, ele era conservador, e seu discurso pregava exatamente isso. Mas o Reagan dos discursos era diferente do Reagan da poltica. O poltico sabia transitar com tranquilidade entre pessoas de diferentes vises. Ele sabia que no  possvel governar apenas com ideias, que  preciso pactuar. Assim, apesar de ser lembrado como um presidente que cortou impostos, ele tambm se viu obrigado a elevar taxas que deixariam os republicanos de hoje chocados. Tambm fez da reforma da imigrao um ponto-chave de seu mandato. Ele acreditava que qualquer cidado que estivesse trabalhando e pagando impostos nos Estados Unidos tinha o direito de regularizar sua situao, caso estivesse ilegal. Essa ideia no estava muito alinhada com o que pensavam os republicanos. Reagan foi ainda responsvel por aumentar a contribuio previdenciria, enquanto, hoje, muitos republicanos falam em desmantelar a previdncia. Reagan agia como exmio negociador, com um pragmatismo mpar. Ele no hesitava em fazer concesses aos democratas em nome de um objetivo maior. Hoje em dia, num Congresso americano em que negociar  sinnimo de fraqueza para muitos republicanos, essa faceta mais moderada de Reagan causa desconforto sempre que  lembrada. Quanto aos integrantes do Tea Party, a ala mais radical do republicanismo, eles dizem inspirar-se no legado de Reagan, mas s entenderam metade do legado. No sabem o que  governar. 

POLTICA EXTERNA DAS GRANDES QUESTES 
Reagan tinha uma viso muito clara de que a Unio Sovitica era um "imprio do mal" e tinha de ser derrotada. Dizia isso com clareza em seus discursos. Mas, na hora de negociar com Mikhail Gorbachev, foi pragmtico. Seus talentos de negociador levaram  construo de tratados, em especial o de 1987, que selava as bases para o fim da Guerra Fria. Sua dedicao a esse tema se explica pelo fato de ser o assunto mais importante para os Estados Unidos na poca. Tomemos, por contraste, sua poltica para o Oriente Mdio. O episdio que ficou conhecido como Ir-Contras foi um dos maiores fracassos de seu governo. Descobriu-se que oficiais dos Estados Unidos negociavam armas com o regime do aiatol Khomeini em troca de apoio para libertar refns americanos no Lbano. Na prtica, sua administrao reconheceu fazer acordos com terroristas. Foi um escndalo. Isso aconteceu porque, para Reagan, o Oriente Mdio, naquele momento, no era prioridade. No era a grande questo na poltica externa americana. E esse tipo de questo ele relegava a subordinados. Isso evidencia uma caracterstica muito importante de Reagan: ele no era um bom gestor, no era um tipo de lder preocupado com os detalhes. Dedicava sua ateno s questes mais amplas. 

O PROBLEMA DA AMRICA LATINA 
Reagan agiu de forma contundente para financiar o combate a governos de esquerda em El Salvador, na Nicargua, em Granada. O que contava ento era a Guerra Fria. Se fosse eleito presidente hoje, no tenho dvida de que Reagan pouco se envolveria com a Amrica Latina, simplesmente porque no h nenhuma potncia inimiga por trs desses pases, como ocorria com a Unio Sovitica. Ou seja, no h nenhum pas por trs da Argentina ou da Venezuela que possa se beneficiar do discurso antiamericano de seus lderes. 

REAGAN, O PENSADOR? 
Reagan citou o economista austraco Friedrich von Hayek em muitos discursos. Concordava com os preceitos do liberalismo econmico defendidos por ele e s vezes procurava em seus livros um apoio, uma segunda opinio. Mas a verdade  que ele no tinha um conhecimento profundo de suas teorias. Se lhe fizessem perguntas mais especficas, no saberia o que dizer. A proximidade com Hayek foi uma histria que os assessores econmicos de Reagan espalharam para lhe atribuir uma faceta mais intelectual. Reagan no era um grande apreciador de filsofos e pensadores. Ele no era um terico de nada. Ele gostava de fazer poltica. 

A TEMIDA MARGARET THATCHER 
 verdade: Reagan temia a primeira-ministra britnica Margaret Thatcher. Ela tinha uma personalidade poderosssima e exercia esse poder sobre ele. A tal ponto que Reagan se sentia mais confortvel confrontando o russo Mikhail Gorbachev. Um exemplo: quando os Estados Unidos adotaram uma posio inicialmente neutra em relao ao conflito entre Inglaterra e Argentina sobre as Ilhas Malvinas, Thatcher se enfureceu, e Reagan, mais que depressa, mudou de ideia. Pessoas que conviveram com Reagan relatam que, sempre que ele atendia uma ligao de Thatcher e, de alguma forma, tinha de contrari-la, assumia um tom de desculpa. Coisa que ele no fazia com nenhum outro lder mundial. Mas tambm  verdade que ele gostava muito dela. Justamente por isso no queria desapont-la. Muitas vezes, ele a via como sua prpria conscincia em assuntos de poltica externa. Como uma guia. Eles concordavam em muitas coisas. E, como a Inglaterra sempre foi uma grande aliada dos americanos, ele se sentia na obrigao de no estragar essa relao. 

TUDO POR NANCY 
Reagan era um poltico muito irnico. Gostava de piadas e de fazer discursos divertidos. O bom humor era um dos segredos de seu sucesso como lder. Quando aparecia na TV, sempre estava sorrindo, com um aspecto afvel. Era o tipo de homem que as pessoas tinham vontade de conhecer melhor, que julgavam ser uma companhia agradvel, uma pessoa afetuosa. Mas esse bom humor no estava relacionado s emoes. Quem convivia com ele o classificava como frio e desapegado. Todas as suas emoes eram direcionadas a uma nica pessoa: sua esposa, Nancy. Nem mesmo com os filhos ele era muito afetuoso. Reagan sempre relutou muito em demonstrar sentimentos e s conseguia dar esse passo com Nancy. Isso tem muito a ver com sua infncia. Seu pai era alcolatra. E desde muito cedo ele aprendeu que no podia contar com algo com que, em teoria, todos podemos ter, que  o apoio paterno. Isso fez com que Reagan desenvolvesse uma desconfiana aguda e no conseguisse se relacionar com ningum de forma mais profunda. Era um homem extremamente fechado. Exceto com Nancy. Ela foi o amor de sua vida e sua nica amiga. Como direcionava a ela toda a energia emocional que possua, no sobrava espao para outras pessoas.  


5#7 SOCIEDADE  BEM-VINDOS AO BRASIL... ...E VIREM-SE
O nmero de estrangeiros que entram como refugiados no Brasil aumentou 2200% desde 2010. Eles fogem de catstrofes naturais, de guerras e da misria e encontram um pas de braos abertos... apenas at a porta do aeroporto. A partir da, tm de se virar com a lngua, a falta de empregos e o assdio de traficantes.
LEONARDO COUTINHO

     Os barcos abarrotados de migrantes  deriva  ou naufragados  no Mediterrneo e no Oceano ndico so, tambm, um problema brasileiro. Dos 14 milhes de pessoas que, segundo a Organizao das Naes Unidas (ONU), tiveram de fugir de guerras, catstrofes naturais ou condies de vida miserveis em seu pas de origem, 75.000 esto no Brasil. Destes, 46.000 so haitianos, que uma vez em solo brasileiro tm direito a reivindicar um visto especial, que lhes garante permanncia imediata, e pouco mais de 21.000 esto  espera da aprovao do seu pedido de refgio. Apenas 7662 j possuem o passaporte brasileiro de refugiado. Por qualquer nmero que se use como parmetro, o Brasil  um destino irrelevante comparado ao fluxo desesperado de pessoas no restante do mundo. Uma visita s ruas do centro, aos prdios ocupados por sem-teto e s mesquitas e igrejas das regies mais pobres das grandes cidades brasileiras, porm, mostra que a questo dos refugiados est longe de ser irrelevante para o pas. Nos ltimos quatro anos, o nmero de estrangeiros que chegaram ao Brasil e pediram refgio aumentou 2200%. A informao de que a lei brasileira sobre o assunto, de 1997,  uma das mais liberais do mundo  basta ficar na fila da imigrao, mesmo sem passaporte, e pedir refgio para conseguir entrar  est se espalhando rapidamente nos pases conflagrados. O problema  que os solicitantes so despejados na sociedade brasileira sem nenhum filtro, preparo, orientao ou ajuda do Estado. Muitos entram em um novo ciclo de misria ou so cooptados pelo crime organizado. Segundo um levantamento da Polcia Federal, um em cada quatro atravessadores detidos neste ano no Aeroporto de Guarulhos tentando sair do Brasil com drogas na mala ou presas ao corpo tem passaporte de refugiado. No  possvel saber quantos j chegaram ao Brasil como soldados do trfico e quantos foram aliciados depois. 
     O fato  que a entrada  muito fcil. Difcil  encontrar um rumo depois de passar pela imigrao. Na PF, os estrangeiros recebem a sugesto de procurar a ajuda de instituies filantrpicas ou centros de culto de sua religio. Sem saber falar portugus, levando consigo apenas um protocolo do processo de solicitao de refgio, a maioria passa horas e at dias nos aeroportos de desembarque antes de conseguir tomar um rumo. No bairro do Pari, em So Paulo, a mesquita sunita local tornou-se um dos centros de referncia para quem chega  cidade. "Muitos taxistas j sabem que  para trazer os refugiados aqui", diz o xeique Rodrigo Rodrigues. No centro da capital paulista, outra mesquita concentra principalmente muulmanos africanos. No ano passado, cerca de 200 foram abrigados nas dependncias do templo. Atualmente, 42 refugiados vivem no local. Sem dinheiro para cobrir as despesas, o nigeriano Maruf Lawal, administrador da mesquita, recolhe doaes de alimentos, que so usados no preparo de uma refeio diria para cada abrigado. "Como srio, eu serei eternamente grato ao Brasil por abrir as portas a quem foge da guerra e da violncia, sobretudo aos meus conterrneos. Mas ser um pas receptivo no basta.  preciso ter uma poltica para acolher bem", diz o xeique Mohamad Al Bukai, im da mesquita de Santo Amaro e presidente da Sociedade Beneficente Muulmana. 
     Uma mudana na legislao, que facilitou a emisso de vistos para algumas nacionalidades e entrou em vigor no ano passado, foi a principal razo para que eles passassem a migrar para o Brasil. A lngua tem sido a maior barreira para que eles possam ganhar independncia. Esse  o caso de Maher Hamoudeh, de 32 anos. Fugindo da guerra civil que obrigou 4 milhes de pessoas a sair da Sria, ele deixou a cidade de Artuz com a mulher e as trs filhas (de 1, 7 e 9 anos) em 2014 para tentar a sorte no Brasil. Ele conta que teve a casa invadida, foi espancado e viu familiares ser presos por tropas leais ao ditador Bashar Assad. Decidiu, ento, vender o caminho e o carro que tinha e usou o dinheiro para viajar para o Egito. "Pensei em seguir para a Europa, mas o risco de minhas filhas morrerem na travessia pelo mar me fez mudar de ideia e optar pelo Brasil", diz Hamoudeh, que vive com a famlia em uma casa emprestada por um brasileiro aposentado de So Bernardo do Campo, em So Paulo, e faz bicos como pintor ganhando 50 reais por dia. 
     Eis a principal explicao para a sbita exploso de interesse pelo Brasil entre os refugiados do Oriente Mdio e da frica: a viagem  considerada mais segura e mais barata do que a aventura de se jogar nas mos de quadrilhas de traficantes de seres humanos em direo  Europa, ainda que as perspectivas de sucesso econmico por aqui no paream to promissoras. Quando deixou a cidade de Kaolack, em janeiro do ano passado, a senegalesa Mata Gadiaga, de 35 anos, apostou todas as suas economias em um futuro longe da seca, do desemprego e da pobreza que assolam o seu pas. Na companhia de trs irmos, ela embarcou em um voo da capital, Dacar, com destino a Quito, no Equador. O pas  o nico a oferecer visto barato e rpido a todos os senegaleses. De l, Mata e os irmos foram levados de nibus por coiotes at a fronteira brasileira, passando por Lima, no Peru. O percurso todo, incluindo o pagamento aos traficantes de pessoas, custou 3000 dlares. 
     Em 2009, um dos irmos de Mata havia tentado o sonho europeu, e se desiludiu. Diaw Yoro, ento com 25 anos, embarcou na Turquia em um bote com 35 pessoas em direo ao litoral grego. Depois de viajar por cerca de 78 quilmetros durante a noite, ele e os demais tiveram de se jogar no Mar Egeu e nadar aproximadamente por uma hora at a praia. Diaw conta que depois de chegar  terra firme, esperou pelos demais, mas no viu ningum. "No sei se morreram todos. Simplesmente no apareceram na praia", diz Diaw. Ele trabalhou como pedreiro e camel, mas a crise grega apertou e Diaw resolveu voltar ao Senegal. Ele e os irmos comearam a ouvir maravilhas da economia brasileira e decidiram vir juntos para c. Diaw  ambulante de relgios no centro de So Paulo, enquanto os irmos, sob o comando de Mata, vendem quarenta marmitas de comida africana por dia. Eles dividem uma quitinete de 30 metros quadrados no centro de So Paulo com outros dois senegaleses. O aluguel custa 1200 reais. 
     Os senegaleses so a nacionalidade que mais pede refgio no Brasil. Em segundo vm os cidados de Bangladesh. Os bengaleses tm a Europa e os Emirados rabes Unidos como principais destinos. Mas, entre o endurecimento das regras de imigrao no primeiro caso e as condies penosas de trabalho no segundo, eles encontraram uma alternativa razovel no Brasil, onde h muita demanda para atuar no abate de carne halal (produzida conforme os preceitos do isl). A rota de entrada para o Brasil  feita via Bolvia, pas que oferece o visto por apenas 5 dlares. A primeira leva de bengaleses que veio trabalhar nos frigorficos abriu caminho para a vinda de amigos e familiares, muitos dos quais agora enfrentam as mesmas dificuldades que outros refugiados para se adaptar e conseguir emprego nas grandes cidades brasileiras. 
     Sina semelhante tm os haitianos. Por uma definio legal, eles no so considerados refugiados, mas estrangeiros com visto de permanncia de carter humanitrio. Essa formalidade facilita a obteno de documentos, mas no ajuda em nada a vida no Brasil. Todos os dias, dezenas de haitianos desembarcam em So Paulo, em sua maioria vindos do Acre, por onde entram com a ajuda de coiotes, e pedem abrigo  Parquia Nossa Senhora da Paz ou dividem quartos insalubres em cortios da regio. Em um deles, h dez pessoas compartilhando espaos com menos de 20 metros quadrados, espao cujo aluguel chega a 500 reais mensais. "Como eles no tm conta em banco, fiadores nem emprego fixo, so obrigados a aceitar valores extorsivos para no morar na rua", diz o padre Paolo Parise, responsvel pelo atendimento dos imigrantes na igreja.  razovel aceitar que grande parte das pessoas que chegam ao Brasil, provenientes de pases miserveis ou conflagrados, almeje dar duro para garantir uma vida digna sem precisar depender de ningum. A total ausncia de uma rede oficial de apoio para os recm-chegados, somada a uma lei de refgio permissiva, porm, apenas transfere para o Brasil a pobreza, o desemprego e a violncia, problemas dos quais eles pretendiam escapar. 

POR UMA VIDA MELHOR
Desde 2010, o nmero de pedidos de refgio no Brasil aumentou 22 vezes, fenmeno relacionado principalmente  guerra civil na Sria.

Pedidos de refgio por ano
2010: 524
2011: 1096 (incio da guerra civil na Sria)
2012: 2127
2013: 5973
2014: 11.910

Pedidos de refgio desde 2010: 21.630
Concedidos pelo governo: 16%
Fonte Ministrio da Justia

DE ONDE ELES VM
Pases de origem dos refugiados
(em total de solicitaes nos ltimos dois anos) [*Os haitianos, ao contrrio dos outros refugiados, recebem um visto humanitrio, que lhes d direito  permanncia imediata]
HAITI: 40.777. Porcentagem dos refugiados que vieram para o Brasil: 52% - visto humanitrio
SRIA: 2097. Porcentagem dos refugiados que vieram para o Brasil: 0,05% - refugiados de guerra
SENEGAL: 3398. Porcentagem dos refugiados que vieram para o Brasil: 12% - refugiados econmicos
GANA: 1526. Porcentagem dos refugiados que vieram para o Brasil: 5,5% - Refugiados econmicos
NIGRIA: 1665. Porcentagem dos refugiados que vieram para o Brasil: 1,3%. Refugiados de guerra
BANGLADESH: 2463. Porcentagem dos refugiados que vieram para o Brasil: 9% -Refugiados econmicos.
Fontes: Acnur e Ministrio da Justia.


5#8 MEDICINA  CONFISSES BRUTAIS
Num estupendo livro de memrias, o cirurgio de crebro Henry Marsh deixa uma lio valiosa ao relatar, com uma sinceridade arrasadora, seus erros fatais em mais de trs dcadas de uma carreira brilhante.
ANDR PETRY

     Henry Marsh espiou pela porta entreaberta de um dos quartos e viu um senhor em estado vegetativo sobre a cama, a pele acinzentada, o corpo encolhido, imvel como uma pedra. Quem seria o pobre homem, esquecido naquela casa de repouso nos arredores de Londres? Curioso, Marsh conferiu o nome na placa  porta do quarto e estremeceu. O homem fora seu paciente alguns anos atrs. Desde ento, estava condenado a uma cama, paralisado e inconsciente, sem nenhuma esperana de um dia voltar  vida, por culpa de um erro mnimo mas terrvel que Marsh cometera ao oper-lo. Que fardo  mais pesado do que destruir uma vida para sempre? 
     A tragdia acontecera sete anos antes. Aquele senhor, ainda na casa dos 50 anos, acompanhado pela mulher e pelo filho, procurara Marsh para extrair um tumor no crebro. O tumor era enorme, de um tamanho que s aparece nos livros de medicina, e Marsh encarou o desafio com entusiasmo juvenil. No dia da cirurgia, comprou frutas e chocolate para sua equipe e separou dezenas de CDs para atender a seu hbito de operar ouvindo msica. Seria uma cirurgia longa e delicada. Aberta a cabea do paciente, Marsh trabalhava umas duas horas, fazia um intervalo para descansar, comia uma fruta, fumava um cigarro e voltava a operar. Na ecltica trilha sonora na sala de cirurgia, ouviam-se Bach, Abba, msica africana. Depois de quinze horas de trabalho, quase todo o tumor estava retirado, e o ambiente na sala de cirurgia era leve e festivo. Diz Marsh: 
      Eu devia ter parado naquele momento. 
     Mas no parou. Marsh j era um neurocirurgio experiente, havia quatro anos chefiava uma equipe num hospital londrino, mas queria a glria. Nos congressos internacionais, as estrelas mundiais da neurocirurgia apresentavam suas operaes fabulosas nas quais nunca deixavam um resduo sequer de tumor. Marsh queria o mesmo triunfo, e com um tumor de dimenses excepcionais. Comeou ento a retirar o pedao final, e, de repente, numa distrao fatal, deu-se a tragdia: perfurou um prolongamento da artria basilar, um pouco mais grosso que um alfinete, e um jato de sangue, vermelho intenso, comeou a espirrar para cima. Marsh logo estancou o sangramento, mas sabia que o acidente era uma catstrofe. A artria basilar mantm o tronco cerebral vivo, que, por sua vez, mantm todo o resto do crebro. Trs horas depois, a cirurgia estava encerrada, mas o paciente, com o dano na artria, nunca mais acordou. Agora, sete anos depois, estava ali, feito um vegetal, na solido implacvel de uma casa de repouso, apenas  espera de morrer em definitivo. 
     A histria est contada no estupendo livro de memrias que o neurocirurgio ingls Henry Marsh, 65 anos, acaba de lanar nos Estados Unidos, Do No Harm (No Faa Mal), para celebrar sua aposentadoria. Ao captulo em que narra essa falha desastrosa, Marsh deu o seguinte ttulo: "Arrogncia". Ele nunca mais fez cirurgias longas sem revezar com outro colega o trabalho. Nunca mais ouviu msica na sala de operao. E aprendeu uma lio fundamental da neurocirurgia: o importante  saber a hora de parar. Qualquer cirurgia no crebro  delicada, e qualquer interveno no lugar errado  que, na neurocirurgia, se mede em milmetros  pode ter uma repercusso catastrfica. A hora certa de parar pode parecer um conselho trivial numa especialidade mdica to complexa, mas, na verdade,  o que separa o triunfo da tragdia. 
     No livro, Marsh rememora uma coleo de tragdias e emociona o leitor pela sua sinceridade quase brutal. Conta o caso da paciente que tinha um tumor entre a sexta e a stima vrtebra da coluna cervical e, no dia seguinte  operao, acordou com todo o lado direito paralisado para sempre. Lembra do paciente que o procurou para a retirada do tumor cerebral que lhe estava roubando a viso e cuja cirurgia o deixou definitivamente cego. Fala do idoso que ele tentou curar de uma neuralgia do trigmeo, doena que provoca dores alucinantes em um lado do rosto, mas falhou clamorosamente: semanas depois, como resultado da cirurgia, o homem teve um derrame fatal. Relembra a operao em que danificou acidentalmente o nervo da face de um paciente e confessa o que sentiu dias depois ao v-lo com o rosto desfigurado: "Tive um profundo sentimento de vergonha". 
     E lembra dos seus mortos com a ternura sugerida na frase do mdico francs Ren Leriche, que aparece como epgrafe do livro: "Todo cirurgio carrega dentro de si um pequeno cemitrio ao qual comparece, de tempos em tempos, para fazer uma orao". Num dos tmulos de Marsh est a menina Tnia, que o neurocirurgio conheceu numa de suas frequentes visitas  Ucrnia, onde operava de graa para uma populao depauperada. Tnia tinha um enorme tumor na base do crebro, grande demais para uma criana de 11 anos. Marsh comoveu-se com o caso e levou-a para Londres. Tnia fez duas operaes, num total de 22 horas na mesa de cirurgia, teve uma perda colossal de sangue e sofreu um derrame severo. Ficou seis meses hospitalizada. Muda e desfigurada, voltou para casa pior do que sara. Morreu dezoito meses mais tarde. Num documentrio de 2007, o premiado The English Surgeon (O Cirurgio Ingls), o caso  contado com objetividade e delicadeza. Na ltima cena, Marsh est diante do tmulo de Tnia, em Horodok, o vilarejo ucraniano em que morava. Marsh fez tudo para salv-la, mas, na realidade, apenas aumentou seu sofrimento. 
      Eu deveria ter deixado Tnia na Ucrnia. Deveria ter dito  me que a levasse de volta para Horodok. 
     Ao relatar suas derrotas, Marsh pretende combater a distoro segundo a qual os mdicos erram como mortais, mas agem como deuses. "Cirurgies tm dificuldade de admitir os erros, para si mesmos e para os outros. Disfaram de todas as maneiras e tentam atribu-los a outros. No entanto, agora que estou chegando ao fim da minha carreira, sinto uma obrigao crescente de dar meu testemunho sobre erros do passado, na esperana de que meus auxiliares no cometam os mesmos erros." Numa atividade em que os sucessos no podem ser mais luminosos, mas, em compensao, os fracassos no podem ser mais trgicos, o que tortura os profissionais, diz Marsh,  a incerteza, a dvida. Quando sabe que um paciente no tem salvao, a deciso de no oper-lo  quase serena. O drama se instala quando o mdico no sabe se o paciente pode ou no ser salvo, se a tentativa de ajud-lo far mais mal do que bem. Marsh acredita que, com alguma frequncia, mdicos e familiares concordam com uma cirurgia, mesmo sabendo que as chances de sucesso so nulas, ou quase nulas, para fugir de "discusses dolorosas" e, assim, involuntariamente, acabam produzindo  "desastres humanos". Marsh lembra do garotinho de 3 anos que ele operou de um tumor cerebral. Dois anos depois, a doena voltou. Marsh operou-o de novo, mas logo o tumor reapareceu. Marsh sabia que no havia mais sada e recusou- se a oper-lo uma terceira vez. Desesperados para salvar o filho, os pais procuraram outro mdico, que o operou trs vezes em doze meses. Mas o garotinho morreu. Por amor, submeteram a criana a um sofrimento atroz. Os pais processaram Marsh por negligncia, razo pela qual ele decidiu abandonar a neurocirurgia peditrica e descobriu uma nova dor dentro da dor: 
      O amor, costumo dizer aos meus estagirios, pode ser muito egosta. 
     Marsh era um mdico desanimado at o dia em que, casualmente, assistiu a um colega operar um aneurisma cerebral, cirurgia ento to delicada e perigosa quanto desarmar uma bomba. Teve uma "epifania cirrgica". Encantou-se com tudo. "A operao"  lembra ele  "envolvia o crebro, o misterioso substrato de todo o pensamento e todo o sentimento, de tudo o que  importante na vida humana. Para mim, parecia um mistrio to imenso quanto as estrelas no cu noturno e o universo ao nosso redor." Naquele mesmo dia, voltou para casa e avisou  sua mulher que seria cirurgio de crebro, entregando-se a uma obsesso e a interminveis horas de trabalho que, 25 anos depois, levariam ao fim do seu casamento. 
     Em sua carreira brilhante, Marsh tornou-se pioneiro na cirurgia cerebral com anestesia local. O paciente fica acordado, com o incmodo de ouvir o ensurdecedor barulho de furadeira esburacando o crnio, mas com a vantagem de que qualquer dano que possa vir a causar alguma paralisia  detectado na hora. A cirurgia com o paciente acordado s  possvel porque o crebro, em si, no sente dor. A anestesia local  aplicada para neutralizar a dor na pele, nos msculos e nos tecidos, que ficam todos fora do crebro. Marsh explica: "Se os meus pacientes sentissem quando eu toco seu crebro, eles teriam de ter um segundo crebro em algum lugar para registrar essa sensao". 
     Os longos anos de ofcio nunca roubaram seu fascnio. Nas operaes, Marsh fica incrdulo  ideia de que seu "sugador est se movimentando atravs do prprio pensamento, atravs da emoo e da razo" e de que "memrias, sonhos e reflexes so feitas dessa geleia". Ao extrair um tumor na glndula pineal, que fica no miolo do crebro, Marsh descreve seu deslumbramento: "Estou olhando diretamente no centro do crebro, uma rea secreta e misteriosa em que esto localizadas todas as funes mais vitais que nos mantm conscientes. Acima de mim, como os majestosos arcos das cpulas das catedrais, esto as veias profundas do crebro  as veias cerebrais internas e, mais adiante, as veias basais de Rosenthal e, em seguida, a veia de Galeno, azul-escura e brilhante  luz do microscpio". Ele  apaixonado pelas cores do crebro  vermelho, rosado, prpura  e pelo desenho das veias, que se exibem "como tributrios de um rio visto do espao". O espetculo  fascinante, mas Marsh no nos deixa esquecer do perigo e da dor. Na mesma casa de repouso onde vegetava seu paciente de sete anos atrs, Marsh identificou, lendo a placa na porta dos quartos, o nome de outros quatro pacientes seus. 
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6# ARTES E ESPETCULOS 10.6.15

     6#1 LIVROS  QUEM  ELENA FERRANTE?
     6#2 LIVROS  O MODERNISTA MALOGRADO
     6#3 LIVROS  O ARQUITETO DA GUERRA FRIA
     6#4 CINEMA  NOSTALGIA DO FUTURO
     6#5 MSICA  BOSSA NOVA DE PIJAMA
     6#6 VEJA RECOMENDA
     6#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     6#8 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  SOCORRO, SENADO

6#1 LIVROS  QUEM  ELENA FERRANTE?
O primeiro livro da "srie napolitana" assinada pela escritora  publicado no Brasil  enquanto, na Itlia, correm especulaes sobre a identidade que seu nome oculta.
SRGIO RODRIGUES

     O mistrio que envolve a festejada escritora italiana Elena Ferrante pode comear a ser desvendado pelo leitor brasileiro com a publicao de A Amiga Genial (traduo de Maurcio Santana Dias; Biblioteca Azul; 336 pginas; 44,90 reais), o primeiro dos quatro volumes que compem sua chamada "srie napolitana". Isto , desde que se tome como autobiogrfico o romance narrado por Elena Greco, que reconstri sua infncia e adolescncia num bairro pobre de Npoles nos anos 1950. Apesar da diferena de sobrenome, tal identificao entre autora e personagem tem sido feita pela maior parte de uma crtica internacional entusiasmada, que tornou Ferrante, ao lado do tambm prolfico noruegus Karl Ove Knausgard, a coqueluche literria do momento. O argumento  que os dois, chamados simplesmente de "tits" pela prestigiosa revista americana The New Yorker, driblariam o que a fico tem de falso ao se desnudar em suas memrias. "Seus romances so intensamente, violentamente pessoais", escreveu sobre Ferrante o respeitado crtico ingls James Wood. 
     O problema mais bvio com tal ideia  que, enquanto Knausgard escreve de modo explcito sobre a prpria vida e se multiplica em entrevistas sobre isso, Ferrante  um ponto de interrogao. "Acredito que os livros, uma vez escritos, j no precisam de seus autores", afirmou ela em carta de 1991 a seu editor italiano, avisando que nada faria pela divulgao de seu primeiro romance, LAmore Molesto (indito no Brasil). Promessa cumprida e renovada a cada livro: resistindo ao sucesso de pblico e crtica, a autora permaneceu reclusa, no divulgou uma nica fotografia e se limitou a conceder meia dzia de entrevistas por escrito, todas avaras em revelaes pessoais. Conta ter nascido e crescido em Npoles, mas pouco mais que isso. O fato de "Elena Ferrante" ser provavelmente um pseudnimo  a nica explicao para que a proverbial xeretice da imprensa italiana ainda no tenha elucidado o mistrio  no inviabiliza, claro, a tese dos romances autobiogrficos. Ela tem mesmo como tema constante a condio feminina, questes como a maternidade e a amizade competitiva entre mulheres, que trata com sensibilidade e desassombro. Contudo, no faltam cticos que imaginam um homem por trs da mscara: o escritor italiano Domenico Starnone costuma ser mencionado como candidato ao posto. 
     Questes de autoria  parte, A Amiga Genial  um bom romance de formao narrado em linguagem seca e segura, sem digresses nem qualquer ousadia formal. O domnio que Ferrante tem sobre a tcnica romanesca  evidente, mas jamais se transforma em virtuosismo. O que impulsiona a histria contada por Elena Greco, filha de um contnuo da prefeitura,  a pura sucesso dos acontecimentos: de seu primeiro encontro com Lila Cerullo, filha de um sapateiro, no incio do ensino fundamental, at o casamento desta, aos 16 anos, as duas amigas crescem juntas. Elena  inteligente, ponderada e medrosa. Lila  brilhante, imprevisvel e "levada sempre, pior que os meninos". Numa dinmica ao mesmo tempo amorosa e competitiva, alternando admirao e rancor mtuos, a autora as faz trocar o tempo todo de papis: Lila era uma criana magra e suja que vira uma adolescente deslumbrante, enquanto a loura e graciosa Elena desabrocha numa jovem gordinha que se julga feia; Lila era a melhor aluna da turma, mas  impedida pelos pais de continuar estudando e passa a se dedicar  sapataria da famlia; Elena, que se via condenada a um eterno segundo lugar nas disputas escolares, segue em frente nos estudos clssicos e logo est aprendendo latim e grego. 
     O ambiente em que as amigas crescem  dominado por homens violentos. Na rua, trocar pedradas com grupos rivais  comum at para as meninas, e em casa as surras rotineiras podem chegar  beira do assassinato, como quando Lila  atirada da janela pelo pai e quebra o brao. Instrudas por um vizinho comunista, as duas acabam por compreender que o fantasma do fascismo italiano recm-derrotado na II Guerra se confunde com o submundo criminoso de agiotas e mafiosos para explicar as desigualdades econmicas do bairro. Os filhos das afluentes famlias Solara e Carracci, temidas e respeitadas pelos pais das duas amigas, vo aos poucos se transformando em sua prpria turma. A galeria de tipos humanos em torno delas  to vasta que justifica a incomum lista de personagens que antecede a narrativa, mais usual em obras de dramaturgia, sem a qual o leitor poderia se perder. 
     A semelhana de A Amiga Genial com o cinema neorrealista italiano vai alm da temtica. O que o romance oferece  o bom e velho realismo literrio, bem executado, com olhar atento ao quadro poltico-social em que os personagens se inserem e sondagens psicolgicas breves mas certeiras entremeadas  ao. Pode ser que alguma evidncia da genialidade que tantos atribuem  autora surja nos prximos livros da srie: no horizonte deste romance robusto, mas esteticamente conservador, no h sinal disso. Cabe perguntar at que ponto aquela intriga de bastidores tem interferido na apreciao crtica de Ferrante. Embora ela defenda, com sua invisibilidade, o saudvel princpio de que os livros devem ser julgados apenas pelo que neles est escrito, pouco importando quem os escreveu, a atribuio de um carter "corajoso", "cru" ou "testemunhal" a suas histrias  sem dvida um dos pilares de seu prestgio internacional, no s como escritora mas tambm como, digamos, porta- voz do feminismo. Seria engraado se Ferrante fosse mesmo, no fim das contas, um homem. A reviravolta surpreendente no alteraria a qualidade de seu texto, mas provocaria abalos considerveis na crena ingnua  que, no sendo nova, vem ganhando fora  de que a fico s escapar da irrelevncia se trocar suas "mentiras" por "verdades". 


6#2 LIVROS  O MODERNISTA MALOGRADO
Indito de Mrio de Andrade comprova sua mediocridade

     Entre tantos desdobramentos de sua carreira de polgrafo  contista, romancista, poeta, missivista compulsivo , Mrio de Andrade (1893-1945) escreveu crtica musical e at publicou uma Pequena Histria da Msica. No entanto, o escritor paulista no tinha ouvido  no, pelo menos, para a prosa em lngua portuguesa. Vcios cacofnicos j so patentes em sua mais conhecida realizao, Macunama, e se tornam ainda mais dolorosos em Caf (Nova Fronteira; 264 pginas; 34,90 reais). Esta obra indita e inacabada chega agora s livrarias em edio de Tatiana Longo Figueiredo, pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, renomado centro de culto a Mrio de Andrade. A profuso de superlativos (fatigadssima, extravagantssimo) deixaria acanhado at o Jos Dias de Dom Casmurro. Ainda mais canhestro  certo fraseado que parece antecipar a pior escrita acadmica dos atuais departamentos de cincias humanas (exemplo: "seres que adoram a posse pela permanncia fsica ineludvel do possudo"). 
     Mrio de Andrade planejara uma obra caudalosa, de 800 pginas, mas sua misericordiosa preguia o fez parar no segundo captulo. O primeiro acompanha as desventuras de Chico Antnio, nordestino nscio e ingnuo  o clich do "tipo popular"  que vai ganhar a vida em uma fazenda de caf paulista. O segundo retrata a decadente famlia do dono da fazenda. Ao estilo do naturalismo do sculo XIX, os personagens so quase todos encaixados na moldura torta de algum esteretipo nacional, regional ou racial. H todo um rebarbativo pargrafo sobre os hbitos higinicos dos nordestinos, que poderia ser resumido em um velho e odioso lugar-comum: so pobres, mas limpinhos. Os interessados em especular sobre a sexualidade do autor devem ler a passagem em que Chico Antnio anda por So Paulo de mos dadas com um recm-descoberto "companheiro ntimo" (mas a narrativa covarde recua da sugesto homoertica: a dupla em seguida admira as pernas de uma mulher). 
     Caf  um entre vrios projetos literrios que Mrio de Andrade deixou inconclusos. Planejara tambm, por exemplo, uma obra de crtica intitulada O Pico dos Trs Irmos, dedicada aos poetas do modernismo que ele considerava mais bem realizados: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes. Em muitas faculdades de letras, acredita-se que o prprio Mrio poderia ser o quarto irmo. No, no , nem de longe. A tardia publicao de Caf ter o mrito de tornar mais clara esta realidade: Mrio de Andrade foi um escritor medocre. 
JERNIMO TEIXEIRA


6#3 LIVROS  O ARQUITETO DA GUERRA FRIA
Tema de uma biografia exemplar, George Kennan concebeu a estratgia vitoriosa para enfrentar a Unio Sovitica, mas acabou excludo do governo americano.
JOEL PINHEIRO DA FONSECA

     Nesta segunda dcada do sculo XXI, a Guerra Fria parece um passado distante, e tambm distante parece uma figura como George Frost Kennan, o diplomata e intelectual que viu, antes de todos, a real natureza das relaes entre os Estados Unidos e a Unio Sovitica no ps-guerra. O criador da vitoriosa estratgia americana na Guerra Fria foi um caso raro de pensador que chegou s mais altas esferas do poder  e saiu decepcionado. A vida e as ideias desse personagem central do sculo passado esto magistral e extensamente registradas pelo historiador John Lewis Gaddis em A Vida de George F. Kennan (traduo de Joubert de Oliveira Brzida; Globo Livros; 812 pginas; 74,90 reais). 
     Formado em Princeton, Kennan entrou aos 22 anos para o servio diplomtico. Foi mandado para a Sua, Alemanha, Letnia, mas seu verdadeiro fascnio e objeto de estudo era a Unio Sovitica, onde ajudou a estabelecer a embaixada americana, em 1933, indicado pelo presidente Roosevelt. Era valorizado por sua fluncia em russo e suas anlises realistas, mas demorou a ganhar o devido reconhecimento. O fim da II Guerra deu-lhe a oportunidade de brilhar. A aliana estratgica com os soviticos levara autoridades americanas a acreditar ingenuamente numa virada de curso do regime e, quem sabe, na paz duradoura. Kennan no se iludia. A Unio Sovitica jamais abandonaria o expansionismo e a inimizade com o Ocidente  elemento central do bolchevismo e, mais ainda, de uma profunda neurose russa anterior a qualquer ideologia. "O funcionrio que brande o poder disciplinador do partido comunista; o servidor da polcia secreta que sacrificou suas relaes familiares aos sombrios ditames de sua profisso; (...) todos eles, e muitos outros alm deles, venderam a alma  teoria de que o mundo exterior  ameaador e hostil", disse. 
     Para se fazer ouvir, em fevereiro de 1946, Kennan quebrou o protocolo e mandou um telegrama de mais de 8000 palavras ao Departamento de Estado. Por meio do Longo Telegrama  como ficou conhecido o documento , conseguiu chegar a quem importava, e logo foi chamado a Washington para trabalhar diretamente sob o secretrio de Estado George Marshall, planejando a poltica externa americana. Sua soluo para a ameaa sovitica era a estratgia de "conteno", termo que usou num artigo de 1947 para a revista Foreign Affairs. Consistia em ter uma presena constante, forte e inflexvel no radar sovitico, de modo a impedir que o comunismo expandisse seu poder. Com o tempo, dizia a teoria, a Unio Sovitica sofreria um enfraquecimento econmico, moral e psicolgico, que culminaria na imploso do sistema  exatamente o que aconteceu. No entanto, o momento em que as ideias de Kennan foram adotadas pelo Estado americano marcou o incio de seu afastamento do poder. A estratgia de conteno se consagrou como a Doutrina Truman  com a diferena de incluir conflitos armados na periferia dos interesses soviticos, coisa que Kennan sempre quis evitar. Aps desentendimentos com Dean Acheson, sucessor de Marshall, foi-lhe dado o cargo de embaixador em Moscou, mas uma declarao desastrada  imprensa fez dele persona non grata no pas. Uma dcada mais tarde, sob Kennedy, no se saiu melhor na Iugoslvia, cuja embaixada tambm deixou. 
     Consumidor voraz de literatura (especialmente a russa), Kennan gostava de compor poemas e tocar violo. Era um intelectual, no um funcionrio pblico. Ao mesmo tempo que servia os Estados Unidos, admirava a fora do povo russo. Fixou-se como consultor e analista da poltica internacional. Foi crtico da contracultura dos anos 60, na qual via sementes de totalitarismo, e tambm do poderio nuclear e das investidas blicas americanas, em particular da Guerra do Vietn. Foi ainda um escritor e ensasta duas vezes premiado com o Pulitzer e presidente da Academia Americana de Artes e Letras. Em sua ltima entrevista, em 2002, criticou a Guerra do Iraque, mais um caso em que a poltica externa americana se estendia alm de suas possibilidades e de seus interesses. Kennan morreu em 2005, aos 101 anos. Foi um homem do sculo XX, ciente ele prprio de que, com o fim da Guerra Fria, seu tempo tinha passado. Ainda assim,  inevitvel pensar que, hoje em dia, com os desafios de uma Rssia que reafirma ambies geopolticas e de uma Europa em crise existencial, os insights de Kennan preservam seu valor. 


6#4 CINEMA  NOSTALGIA DO FUTURO
Em Tomorrowland, a Disney celebra a fantasia urbanstica consagrada por seus parques temticos e copiada mundo afora. Mas a lio requentada de autoajuda estraga o filme.
MARCELO MARTHE

     Em uma fazenda americana, nos anos 60, o garoto Frank Walker (Thomas Robinson) persegue o sonho de inventar uma engenhoca capaz de faz-lo voar. O pai lhe d uma bronca por perder tempo com tal sandice. Seu primeiro teste revela-se um doloroso anticlmax. Nem por isso Frank desanima. "No vou desistir nunca", diz. O filete de autoajuda contido na frase  uma premonio do gosto que restar na garganta do espectador ao fim de Tomorrowland: um Lugar Onde Nada  Impossvel (Tomorrowland, Estados Unidos, 2015). Na produo da Disney em cartaz no pas, o personagem sonhador surge, j adulto, na pele de George Clooney, para narrar os estranhos fatos que se seguiram  apresentao de sua mquina na Feira Mundial de Nova York, em 1964. Na ocasio, o garoto  humilhado pelo chefe da comisso de novas invenes do evento, Nix (Hugh Laurie). Mas a enigmtica menina Athena (Raffey Cassidy) v tudo e percebe que est diante de algum especial. O rumo da vida de Frank muda quando ela lhe d de presente um item prosaico  um broche com a letra T. Ao passear em um brinquedo que parece sado dos parques de diverses da Disney, ele atravessa o portal para outra dimenso: na Tomorrowland do ttulo, os cidados voam em verses modernosas de seu propulsor e aerotrens cruzam os ares em meio  selva de edifcios high-tech. Corta para o comeo dos anos 2000. Filha de um engenheiro da Nasa ameaado de perder o emprego com o ocaso da indstria  espacial, a adolescente Casey Newton (Britt Robertson) vai para a cadeia aps invadir a base de Cabo Canaveral, na Flrida. Por vias misteriosas, um broche como o de Frank cai em suas mos. Da mesma forma que ocorrera com o garoto dcadas antes, o artefato a transportar para a cidade futurista. Com um empurro da mesma menina enigmtica, Casey se conecta ao adulto Frank, ao lado de quem tentar impedir um cataclismo relacionado quele mundo paralelo. 
     Tomorrowland deriva da ala futurista homnima que se pode visitar em vrios parques da Disney  cujo esprito tambm est na base do Epcot, em Orlando. A ideia de um futuro de arquitetura sinuosa e modalidades flanantes de transporte era fixao do fundador da companhia, Walt Disney (1901-1966). No momento em que seu primeiro parque est para completar sessenta anos,  curioso notar como envelheceu aquela noo de futuro  assim como tantas outras desde os livros do francs Jlio Verne, que descreviam com as lentes do sculo XIX um mundo por vir. Apesar do frenesi de videogame, Tomorrowland cheira a um compndio de design retr, com seus robs e naves malucas. Como fica explcito em sua ode  era da corrida espacial, o filme expressa um paradoxo: a nostalgia do futuro. At porque o futurismo dos parques da Disney foi assimilado na arquitetura ps-moderna de cidades como Dubai, Xangai ou Las Vegas. Disney, enfim, ajudou a moldar o mundo de hoje  s que, no processo, seu futurismo virou item de museu. 
     Na verdade, o componente nostlgico  um fator de empatia no filme. O deslize est em outro detalhe: a indeciso existencial. Tomorrowland fica a meio caminho entre a aventura juvenil e a distopia tecnolgica  la Matrix. Para os jovens, a pirotecnia no compensar o enfado com tanto papo-cabea  o que talvez explique por que a produo de 180 milhes de dlares decepcionou nas bilheterias americanas. Para os adultos, a causa da frustrao ser diversa: sob a casca futurista, h um artigo requentadssimo  a mensagem edificante de que as pessoas no devem se deixar anestesiar diante da ameaa do aquecimento global e das guerras. Com essa conversa para rob dormir, nem os cabelos grisalhos de George Clooney fariam algum filme ter futuro. 


6#5 MSICA  BOSSA NOVA DE PIJAMA
O recluso Joo Gilberto reaparece no YouTube

     So dois vdeos, dois belos momentos entre pai e filha. No primeiro, de 37 segundos, ele toca violo enquanto a menina canta Garota de Ipanema. O outro  um pouco mais curto  23 segundos. Ela diz que vai cantar na escola. Ele se empolga: "Vamos ensaiar  bea para ficar escndalo". Depois a filha explica que no vai cantar sozinha. "Serei eu e um bando de outras crianas." Seria s mais uma imagem caseira do YouTube caso o pai no fosse Joo Gilberto, o maior nome vivo da bossa nova, em sua primeira apario pblica em sete anos, e s vsperas de um aniversrio  84 anos na quarta-feira 10. Gravados h trs semanas por Cludia Faissol, empresria de Gilberto e me de Luiza Carolina, a Lulu (a intrprete de Garota de Ipanema), os vdeos foram inicialmente divulgados no blog da jornalista Lu Lacerda. Em ambos os registros, Joo aparece de pijama e descabelado, sem os ternos almofadinhas que costuma usar em shows. O violo, no entanto, conserva o charme da batida que o tornou famoso. 
     Em 2008, Joo Gilberto fez uma turn para comemorar os cinquenta anos da bossa nova. Quatro anos atrs, ele planejou outra turn, para celebrar seu aniversrio de 80 anos. A srie de shows, depois de vrios adiamentos (e com baixa procura de ingressos), acabou cancelada por motivos de sade. Cludia no descarta novas apresentaes do cantor. "Ele est pronto como nunca, mas precisa trabalhar com pessoas que o respeitem de verdade e realmente consigam cumprir o que foi acordado", decreta. Os vdeos divulgados no YouTube so, segundo a empresria, parte de sua histria de vida. H quinze anos ela registra esses momentos. "Minha ideia  ter um acervo para guardar esses documentos." A imagem ao lado de Lulu foi o primeiro ensaio que eles fizeram. "Ainda no sabemos se ela quer ser cantora. Mas ele sabe ensinar como ningum, no deixa a gente perder as notas correias.  um conhecimento muito distinto", diz a me. Outra tarefa que tem demandado empenho de Cludia  a reedio dos trs primeiros discos de Joo Gilberto, que deram rgua e compasso  bossa nova (Chega de Saudade; O Amor, o Sorriso e a Flor; e Joo Gilberto). Ela aguarda aquela velha ajudinha estatal que nenhum artista brasileiro dispensa: "Fiz uma srie de memoriais pedindo ajuda a toda a malha governamental para cuidar desses registros, at agora sem resposta". Enquanto isso, esperam-se mais momentos informais como os divulgados no YouTube. 
SRGIO MARTINS


6#6 VEJA RECOMENDA
DISCOS
BUSH, SNOOP DOGG (SONY)
 Snoop Dogg chegou perto do suicdio artstico dois anos atrs, quando abraou a seita rastafri, mudou seu nome para Snoop Lion e se reinventou como cantor de reggae. No deu muito certo, e ele voltou ao que faz de melhor: despejar rimas malemolentes sobre batidas e linhas de baixo inspiradas no funk-soul dos anos 1970. Bush tem produo do onipresente Pharrell Williams e de seu brao-direito, Chad Hugo. A lista de participaes especiais inclui Stevie Wonder, que toca gaita na faixa Califrnia Roll, e Gwen Stefani, menos esganiada que de costume em Run Away. A balada I'm Ya Dogg traz um encontro de Snoop com os rappers Rick Ross e Kendrick Lamar. Em 1995, Snoop Dogg chegou a ser acusado de "envenenar a mente dos adolescentes" por causa de suas letras, um estmulo ao estilo de vida gangsta. A encarnao atual, mais alegre e cabea fresca, no assusta ningum. Mas anima uma festa como poucos.

CHASING YESTERDAY, NOEL GALLAGHER'S HIGH FLYING BiRDS (WARNER)
 Chasing Yesterday poderia ser um disco do Osis, se a banda no tivesse sido desmontada pelos birrentos Noel e Liam Gallagher. Noel, um compositor de talento at quando imita seus dolos, construiu a base do Osis  e agora tambm do High Flying Birds  em cima de trs elementos sonoros: a msica dos Beatles, o glam rock dos anos 1970 e o som da gerao da dcada de 80 em Manchester (sobretudo, Inspiral Carpets e The Stone Roses). Essa mistura fica evidente em Ballad of the Mighty I, que tem como convidado o guitarrista Johnny Marr (ex-Smiths). Nos segundos iniciais de The Girl with X-Ray Eyes, aparece ainda uma citao de Stairway to Heaven, do Led Zeppelin. Mas Noel Gallagher no  um copiador barato: ele sabe manejar os clichs do rock e a partir deles criar uma sonoridade prpria.

LIVRO
OS BOMIOS, DO MARQUS DE PELLEPORT (TRADUO DE ROSA FREIRE D'AGUIAR; COMPANHIA DAS LETRAS; 318 PGINAS; 45,90 REAIS)
 O sculo XVIII de filsofos iluministas como Voltaire e Montesquieu foi tambm o tempo de grandes autores libertinos, notadamente o Marqus de Sade. E filosofia e libertinagem no eram incompatveis: nesta obra ainda pouco conhecida  aqui apresentada pelo historiador Robert Darnton, americano especialista em assuntos franceses do perodo , elas andam de mos dadas. Inspirado em Dom Caixote, clssico do espanhol Miguel de Cervantes, Os Bomios acompanha uma trupe de filsofos meio aventureiros em excurso pela regio da Champanhe. Entre orgias e pequenos roubos, eles vo satirizando a vida francesa e criticando as condies sociais que resultariam na revoluo de 1789. O livro, alis, foi escrito pelo Marqus de Pelleport (1754-1807) quando estava preso na Bastilha, onde tambm Sade escrevia o mais famoso Os 120 Dias de Sodoma.

DVD
A ARTE DE MRIO BAVA (VERSTIL)
 Mrio Bava morreu relativamente cedo  em 1980, aos 65 anos, vitimado por um ataque cardaco fulminante. Mas influenciou cineastas como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Quentin Tarantino, que se encantaram com sua cmera que se aproximava da cena de ao como se fosse um voyeur. Esta caixa traz quatro produes desse mestre italiano do horror, alm de um documentrio com depoimentos de Tim Burton e John Carpenter. O melhor do pacote  A Maldio do Demnio, uma histria de vampiros protagonizada por Barbara Steele. Os trs restantes so giallos (produes baratas, geralmente com histrias policiais ou de horror). Em A Garota que Sabia Demais, uma turista americana descobre que as tramas que est vivenciando na Itlia lembram muito o livro que ela est lendo. O Alerta Vermelho da Loucura  sobre um serial killer de noivas, e Ces Raivosos apresenta um grupo de criminosos que tenta fugir depois de um assalto. Bava morreu antes de terminar esse filme, concludo por seu filho, Lamberto. 

* OS MAIS VENDIDOS VEJA
Feito em 2009 pelo programador sueco Markus Persson, o Minecraft deixou seu criador bilionrio. O game  que consiste em construir prdios e objetos com bloquinhos virtuais para abrigar um personagem que se v perdido numa terra inabitada  foi comprado pela Microsoft por 2,5 bilhes de dlares. A marca  um arrasa-quarteiro: no ano passado, foi o segundo assunto mais procurado no YouTube, que armazena mais de 42 milhes de vdeos sobre o game. Sexto lugar na lista de fico desta semana, Invaso do Mundo da Superfcie (traduo de Edmo Suassuna; Galera Record; 240 pginas; 25 reais)  a extenso do jogo em livro. Narra as aventuras de Gameknight999, um jogador habilidoso mas desleal: tem  prazer em destruir a brincadeira de outros usurios. Ele acaba arrastado para o universo Minecraft, atravs de uma impressora 3D. Seu corpo passa a ser composto dos cubinhos caractersticos do visual do game, e ataques de inimigos podem desmont-lo. No  leitura que possa interessar a quem no joga Minecraft. Tampouco  uma novidade completa nas livrarias: uma srie de livros baseada no jogo Assassin's Creed j frequentou a lista de mais vendidos.
BRUNO MEIER


6#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE
2- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 
3- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA
4- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
5- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito 
6- Invaso do Mundo da Superfcie. Mark Cheverton. GALERA RECORD 
7- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO
8- Deuses de Dois Mundos  O Livro da Morte. PJ Pereira. DA BOA PROSA 
9- As Espis do Dia D. Ken Follet. ARQUEIRO
10- O Demonologista. Andrew Pyper. DARKSIDE

NO FICO
1- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS
2- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS
3- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO 
4- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
5- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS
6- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA 
7- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
8- O Capital no Sculo XXI. Thomas Piketty. INTRNSECA
9- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA 
10- Meu Universo Particular. Frederico Elboni. BENVIR 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- A Fora que Vem da Cruz. Padre Moacir Anastcio. PETRA
3- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
4- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA 
5- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE 
6- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
7- Gerao de Valor. Flvio Augusto da Silva.  SEXTANTE 
8- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE 
9- O Poder da Escolha. Zbia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
10- O Livro do Bem. Ariene Freitas e Jessica Grecco. GUTENBERG 


6#8 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  SOCORRO, SENADO
     O deputado catarinense Joo Rodrigues, flagrado assistindo a pornografia no celular enquanto se discutia a reforma poltica na Cmara, pode ser visto como emblemtico do interesse de boa parte de seus pares pelas instituies do pas. Mas tambm pode ser visto como emblemtico de uma turma que no tinha com que se preocupar. Sabia que, sob a batuta de Eduardo Cunha, no havia como sair reforma que viesse a dificultar a vida dos polticos. 
     No saiu. Todas as votaes at agora, rigorosamente todas, foram no interesse da "classe". Aprovou-se inscrever na Constituio que so permitidas doaes de empresas aos partidos (deve ser o nico caso no mundo em que a tal disposio se d a nobreza de preceito constitucional). Revogou-se a reeleio, para alvio dos que se cansam de mofar na fila de espera dos cargos executivos. Manteve-se a permisso de coligaes para eleies proporcionais. E aprovou-se, com o nome de "clusula de barreira", que basta o partido eleger um nico deputado ou senador para ter acesso ao fundo partidrio e  propaganda no rdio e na TV. 
     Tudo perfeito; tudo to distante dos clamores por mais democracia e melhor governana quanto prximo da disfuncionalidade e dos trambiques do sistema atual. A manuteno das coligaes em  eleies proporcionais significa que o eleitor vota num candidato de direita e corre o risco de eleger um de esquerda, ou vice-versa. Uma "clusula de barreira" com exigncia to baixa permite que todas as pequenas legendas hoje representadas no Congresso continuem a usufruir das atuais vantagens. Juntas, as duas medidas mantm as tenebrosas transaes em torno de minutos nos horrios de propaganda eleitoral. 
     O nico resultado positivo foi a rejeio do chamado "distrito" nas eleies para deputado  inveno do vice Michel Temer, endossada por Cunha, pela qual se substituiria o voto proporcional pelo majoritrio, mas sem a diviso dos estados em pequenos distritos, como manda a boa regra dos pases avanados. Pena que junto com o distrito tenham  sido rejeitadas as demais opes ao cansado e confuso sistema atual  mas esse  um ponto em que no dava mesmo para esperar o fim de um impasse que vem desde a redemocratizao. Ao modelo em princpio atraente do voto distrital falta definir a crucial questo sobre quem vai desenhar os distritos, com que autonomia e com que autoridade de resistir s presses, para se tornar convincente. 
     O fim da reeleio  inconveniente a esta altura por dois motivos. Primeiro, porque o instituto ainda no foi devidamente testado. Se h abusos do cargo para fins eleitoreiros, melhor seria focar nos abusos do que no instituto em si. Segundo, porque desencadeia a questo da durao dos mandatos, com nefastos desdobramentos. Mandato de quatro anos para cargo executivo, sem reeleio, considera-se pouco. Esticar para seis?  muito. Lembrai-vos de Joo Figueiredo; nem ele aguentava o fim de seus seis anos, e marcava na madeira da cocheira do Torto (era um presidente que andava a cavalo, no de bicicleta) os dias de mandato que ia vencendo. Cinco?  nmero mpar, que desconecta as eleies de presidente, governador e prefeito das de deputados e vereadores. 
     Mas... E se esticarmos os mandatos de deputado e vereador para cinco anos? E, j que estamos com a mo na massa, e se juntarmos todas as eleies numa s, a cada cinco anos, livrando-nos da trabalheira de ir ao eleitor a cada dois?  isso mesmo que a Cmara votar, provavelmente j na prxima semana. S no votou ainda porque no se sabia o que fazer com o mandato de senador, atualmente de oito anos. Vencido esse impasse, a aprovao da unificao de todas as eleies num nico dia trar aos brasileiros as seguintes consequncias: (1) sero chamados  urna num dia e nos prximos cinco anos estaro condenados ao silncio; (2) tero de acompanhar uma mesma campanha para presidente, senador, deputado federal, governador, deputado estadual, prefeito e vereador, sopesando a um tempo questes referentes ao pas, ao estado e ao municpio, e em seguida encarar a tarefa de pinar o preferido em meio a uma profuso de listas e uma algaravia de milhares de candidatos. 
     H muito se espera uma reforma que venha a melhorar nosso sistema poltico. A "reforma" de Eduardo Cunha est conseguindo pior-lo. Resta-nos a esperana de que, tal qual o FBI contra a Fifa, o Senado venha em nosso socorro. O retrospecto indica que a Casa no  muito disso, mas vamos em frente  falta a votao do Senado, e at l as aberraes da Cmara tero se evidenciado suficientemente para exigir uma ao redentora. Vamos l, senadores. Sejam mais Loretta Lynch, menos Sepp Blatter. 

